Desabafo: a descida silenciosa de um país
Estamos passando por um período perigoso, e o caminho que estamos trilhando pode nos levar a um destino que ninguém realmente deseja
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terça-feira, 16 de dezembro de 2025
Estamos passando por um período perigoso, e o caminho que estamos trilhando pode nos levar a um destino que ninguém realmente deseja
Ary Sudan 

Sempre me vangloriei de ter uma mente aberta. Era quase meu cartão de visita: o pensamento positivo, fiel companheiro, que me guiou por toda a vida e, de certo modo, ainda me guia. Mas o tempo — esse mestre impaciente — tratou de me mostrar que nem sempre o mundo acompanha as nossas esperanças. Sobretudo nesses últimos vinte anos, tenho presenciado e vivido situações que desafiam minha antiga crença em um país melhor e, por que não, em um mundo melhor.
Admito: talvez tudo isso seja apenas percepção. E, como bem sabemos, percepção não é sinônimo de realidade; é apenas o jeito como os meus olhos, cansados ou atentos demais, captam o cenário. Ainda assim, não consigo ignorar o que vejo: pessoas menos confiáveis, menos dedicadas, menos educadas, menos esforçadas, menos gratas. Uma sucessão de “menos” que me dá a impressão incômoda de que estamos descendo uma rampa — e não uma metáfora bonita, daquelas que viram slogan. Uma rampa verdadeira, inclinada, silenciosa, em direção ao pior.
Não que antes fôssemos exemplo de virtude. Longe disso. Mas, se já não éramos tão bons, por que estamos ficando piores quando deveríamos estar melhorando? Hoje é difícil tratar qualquer assunto com as pessoas. A lealdade, essa palavra antiga, parece ter sido deixada para trás como um objeto que ninguém quer carregar.
É claro que não me refiro a todos. Há sempre aqueles que escapam às “desqualificações” que enumero — e enquanto existir ao menos um, não se pode dizer que o mundo inteiro se perdeu. A exceção, por mínima que seja, ainda é farol.
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Tenho refletido sobre isso com frequência, quase como um ritual íntimo. Pergunto-me, dia após dia, se não sou eu o equivocado. Se não estou vendo sombras onde há apenas nuvens. Se não estou exagerando, interpretando mal, enxergando coisas que não existem. Mas até agora nenhuma resposta me convenceu de que estou errado. Não busco ter razão — pelo contrário. Gostaria mesmo era de encontrar uma explicação que me desviasse dessa sensação, um caminho seguro para seguir.
Mas, quando penso que encontrei, tudo retorna ao ponto de partida: há, sim, uma mudança negativa no comportamento das pessoas. Talvez, no mundo todo. Mas certamente aqui, no nosso velho e contraditório Brasil.
Nós, brasileiros da minha geração e da que veio depois de mim, certamente estranhamos muito o que está acontecendo. Vivemos numa época em que nos orgulhávamos do nosso país. Tínhamos uma educação que começava em nossas casas e era aprimorada nas escolas. Eu vivi esse tempo. Sei que, aos poucos, por vários motivos, a educação doméstica começou a fraquejar e foi gradativamente transferida para as escolas. Mas estas, com o tempo, ficaram impossibilitadas de exercer esse papel duplo. Mal conseguiam exercer o que inicialmente lhes cabia: o refinamento da educação que vinha do lar.
E, então, me pergunto: seria reflexo das nossas lideranças? Do sistema político, corroído moralmente por dentro? Do Judiciário, que deveria ser sinônimo de isenção e imparcialidade, mas já não transmite essa confiança? Ou talvez do sistema educacional, que deixou de formar cidadãos capazes de cuidar da própria vida e contribuir com a sociedade — dedicando-se mais à ideologização do que à formação humana?
Não sei dizer. Só sei que estamos passando por um período perigoso, e o caminho que estamos trilhando pode nos levar a um destino que ninguém realmente deseja — nem mesmo aqueles que, sem perceber, colaboram para o pior. Esses, sobretudo, parecem não saber para onde estão indo.
E, então, diante da minha perplexidade, recorro às palavras que atravessam séculos e ainda fazem sentido: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem”.
Ary Sudan é empresário em Londrina





