Deputado também ofende! - Renzo Sansoni
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 30 de junho de 1998
Renzo Sansoni 
Dois fatos, duas medidas, dois pesos, e muita safadagem verde-amarela. Fatos que acontecem no Brasil e que mancham, que esfolam e que arrepiam todo senso de comprometimento cívico. A eterna relação de poder e de obediência entre o rico e o pobre. Quando os dois precisam ser amassados e guilhotinados pela opinião pública, esconde-se o rico e ferra-se o pobre. Coisitas de país que ainda teima em retornar para as décadas passadas, sob o manto e debaixo do tapete do atraso e da fanfarronada política.
A televisão mostra para todo o País os dois acontecimentos: no primeiro, o nobre deputado, com a verve e o estro da imunidade parlamentar (e do malabarismo daí resultante) é apanhado com a mão na cumbuca, mantendo e pagando, com dinheiro do contribuinte, vários funcionários, para manter a casa limpa (casa aqui é a minha, a sua; a casa dele é mansão de americano rico e de bom gosto) e o nome honrado nas colunas sociais e triviais; alguém com um faturamento liliputiano de US$ 100 milhões anuais.
Rasgado o abcesso e, sob as luzes da televisão, argumentou o ilustre que a Câmara de Deputados lhe concede alguns milhares de reais para gastar como bem entender. Acontece que estamos no Brasil, e isto aqui é país pobre e muito carente de recursos. Os hospitais estão aí, deixando muito brasileiro morrer pela falta de dinheiro.
E não se vê dinheiro da Câmara e nem de deputado em hospitais. E a instituição que deveria estar na trincheira, para defender o povo, concede aos deputados alguns milhares de reais para gastarem como lhes convier. Seria até muito pertinente que a situação financeira da infeliz e de todos os deputados fosse mostrada ao público. A falha da televisão foi não escancarar mais o assunto.
No outro lado da linha e do escândalo, guardas rodoviários são apanhados e clicados esmolando R$ 10, R$ 20, R$ 30 dos também sofridos e abandonados motoristas nas perigosas e esburacadas estradas do gigante brasileiro.
Tais foram os fatos que a televisão mostrou em todos os lares brasileiros, com a celeuma e o espinaframento inerentes. De um lado há um peixe com ginga de tubarão, do outro alguns bagrezinhos danados e atormentados pela falta crônica do combustível real.
Dia seguinte, são tomadas as grandes medidas da decência e do ufanismo cívico brasileiros: os coitados e assalariados guardas envolvidos foram afastados do cargo (ou sofrimento?), sujeitos a inquéritos administrativos, perda de credenciais, punições.
E ao nobre deputado? Nadinha da silva, nadinha cardoso, nadinha magalhães. Deixa estar e o povão esquece e fica tudo como dantes. Simples e elementar, como todos os filmes do cenário político brasileiro. Tudo igualzinho, tudo em pizza. Aos amigos poderosos e no poder, tudo e mais alguma rebarba. Aos burrinhos lá de baixo, toda a vergonha, toda a censura e toda a retaliação dos superiores, para servir de exemplo.
A nossa birra fica aqui registrada, como modesta contribuição na grande e iminente empreitada de demolição desta coisa feia e capenga, incapaz de ajudar o País a crescer, no caminho da saúde moral, e com bons exemplos para as crianças e jovens que estão vindo aí.
Já consigo entender e intuir que o homem esperto, no terceiro milênio, será aquele que ajudará, de coração, ao seu próximo. Principalmente se este próximo estiver muito distante na pirâmide humana, sofrendo, passando dificuldades, sem emprego e sem ter como encaminhar os filhos para a universidade e para o mercado de trabalho.
E digo, também, que o homem-trouxa será aquele que, usando de todo o potencial da inteligência, tudo fizer para passar a perna e a rasteira no seu semelhante, notadamente quando este semelhante for eleitor e responsável pelo seu emprego lá em Brasília.
- RENZO SANSONI é médico oftalmologia em Uberlândia (MG)


