O desmantelamento das famílias vem provocando aumento de casos de depressão entre adolescentes que chega a um nível que pode ser considerado epidêmico. O alerta é do presidente da Associação Brasileira de Adolescência (Asbras), Walter Marcondes Filho. Pediatra, hebeatra (especialista em atendimento a adolescentes), especialista em psicoterapia e psicanalista, o médico londrinense cuida há mais de 20 anos de crianças e adolescentes.
Marcondes Filho atribui o aumento alarmante de casos de depressão às mudanças ocorridas nas últimas duas décadas na estrutura familiar, que deixou de ser nuclear, formada por pai, mãe e filho. ''É a família diferente da convencional já que une o pai de um casamento com mãe de outro ou pais homossexuais'', diz. O médico observa que hoje 35% das famílias são monoparentais, formadas geralmente apenas pela mãe.
O fim do casamento, afirma o psicanalista, representa na maior parte dos casos uma situação de conflito para os filhos, que têm que fazer a escolha entre ficar com o pai ou a mãe. ''Muitos casais induzem o filho a fazer essa escolha'', diz. Pior ainda: eles enfrentam discussões sobre pensão, cobranças, queixas e sofrem uma sobrecarga emocional que gera o sentimento de culpa pelo fim do relacionamento dos pais.
O conflito da separação é um dos desencadeadores do quadro depressivo na adolescência e infância. Há outros fatores que provocam o quadro de depressão e que vão do genético (famílias de pessoas depressivas), o ambiente em que se vive (extrema pobreza, dificuldades econômicas e afetivas) e ambiente hostil (abuso sexual, violência física e privação). ''A desestruturação familiar agrava o problema já que os jovens já são vulneráveis ao risco e precisam de quem cuide deles, quem os ame. Se os pais, as famílias, não fizerem isso quem vai fazer?'', questiona o presidente da Asbra.
De acordo com Marcondes Filho, apesar da gravidade da situação (ele já atendeu uma criança de sete anos que tentou suicídio), há a subnotificação dos casos de suicídio, que passam a ser registrados como acidentes de carro, de motocicleta, afogamento e atropelamentos. A subnotificação ocorre por desconhecimento de quem atende as vítimas e pela ocultação do fato pela família.
Apesar de não haver no Brasil, números sobre os casos de depressão, Marcondes Filho revela que nos Estados Unidos a prevalência é de um caso para cada cinco pessoas. Na adolescência, ele destaca, o problema é mais grave por ser uma fase repleta de angústia pelas transformações psicológicas, biológicas, sociais e espirituais que o indivídio enfrenta. Os pais, enfatiza o médico, precisam ter consciência de que a formação de seus filhos está em suas mãos. Independente de estarem casados ou não.
Marcondes Filho alerta que o comportamento de risco para o jovem é maior já que possui o pensamento mágico de que a morte é o paraíso e de que vai se encontrar com parentes queridos e depois retornar. ''O jovem é vulnerável ao risco e isso causa aumento do percentual de mortes por causas externas que chegam a 75%, sendo homicídios, acidentes e suicídios'', informa.
O médico, que tem consultório particular e atua também na rede pública, critica a ausência de políticas nacionais que promovam a saúde, entre elas, escolas em tempo integral, lazer, esporte e cuidados com as famíilias. ''Tenho visto os jovens largados. Os pais parecem não querer ver que seus filhos estão fazendo uso de álcool e de drogas. Que estão pedindo que lhe dêem atenção, que cuidem deles já que estão vulneráveis'', afirma Marcondes Filho.
Sobre a ansiedade comum nessa fase e que pode levar ao consumismo, chegando à bebida, sexo e drogas, o médico afirma que em muitos casos os jovens consomem para substituir a ausência da figura austera do pai e para compensar a angústia causada pelas transformações que enfrenta. ''Protelar é palavra-chave'', ensina o médico. Ele lembra que os jovens precisam aprender a enfrentar a frustração de não ter seus desejos (de sair de casa, de comprar objetos) satisfeitos de imediato.
O psicanalista conclui que os jovens estão sofrendo as consequências da geração de pais hoje na faixa dos 40/45 anos e que, após o período de repressão, viveu o período do amor livre e do uso de drogas. Aliado ao fato da liberação da mulher que deixou de ser mãe para trabalhar fora. ''Os órfãos de pais vivos viraram tiranos dentro de casa, que oprimem, que impões seus desejos e que sofrem da falta de amor'', diz. Sem cuidados dentro de casa, os filhos buscam o mundo das drogas, do sexo promíscuo e da violência.
Um quadro triste e desalentador para o especialista que há 23 anos trabalha com adolescentes. Questionado sobre o futuro dessa geração, ele arrisca um palpite: ''Quem sabe esses filhos percebam que o modelo adotado por seus pais precisa ser mudado e passem a agir de modo diferente.''

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