Faz uma década, com o colapso da União Soviética, prometiam-nos (nos Estados Unidos e Europa) anos felizes. Era, para usar o tópico de Fukuyama, o fim da história. Na realidade, acreditava-se no fim das ideologias que haviam atazanado o mundo no século anterior, século que chegava ao fim com uma década de antecipação. A globalização, por sua parte, prestava-se a tomar posições em um planeta feliz presidido pelo livre comércio e a bondade da democracia liberal. Era, em suma, um mundo idílico. Porém sucedeu que quase todos os fantasmas do passado resistiam a abandonar a cena.
Alguns dos ginetes do Apocalipse saíam das cloacas de onde aparentemente se haviam refugiado, ao menos no chamado mundo ocidental, ante à tenaz resistência do sistema graças do guarda-chuva nuclear da OTAN e da proteção da modesta, porém eficaz Comunidade Européia.
De repente, o racismo e o fascismo, o fanatismo e as mais extremas ideologias, regressavam às barricadas e se encarregavam de recordar à opulenta Europa que em suas cercanias podiam recriar todos os pesadelos do passado. O aviso foi na Iugoslávia.
Porém o coração do império, e por inúmeras razões diferentes, os inimigos internos, insatisfeitos pelo multiculturalismo que ameaçava uma pretendida pureza de sangue norte-americana, atacavam por sua conta. Oklahoma foi outro aviso, à la americana. Acreditava-se que com a execução do aparente solitário nativista se havia terminado com a fúria.
No exterior era outra coisa. As embaixadas dos Estados Unidos se converteram en fortalezas. Kenya e Sudão engrossaram as listas de advertências. Porém, o sistema seguia incólume. O Oriente Médio sangrava, porém ''entrava na normalidade''. Era a guerra de sempre entre judeus e palestinos.
Huntington e seu pretendido choque de civilização não se tomaram a sério. Suas teses se intuíam, não sem razão, como uma desculpa do chamado complexo industrial-militar para engrossar os cofres das companhias às ordens do Pentágono.
E chegou a tragédia.
A dimensão do trauma ultrapassa todo o imaginável e agora é virtualmente impossível prever as consequências, porém precisamos tentar. Entre o possível, destaca-se o endurecimento do sistema de proteção estatal, com a consequente erosão dos direitos civis. Não se descarta nem os registros domiciliares nem as escutas telefônicas. O uso de Internet deverá sofrer uma drástica regulação. O múltiplo atentado dará sustentação aos advogados do sistema antimísseis para seguir adiante. As suspeitas ante à imigração descontrolada vão obscurecer o ambiente.
O mundo em geral deverá encaixar o golpe como contra seus próprios interesses e não cometer o erro monumental de crer que este é um ataque seletivo contra os Estados Unidos. É contra todas as normas civilizadas. O mundo compreenderá o peso do crime contra o governo e o povo norte-americano, desgraçadamente e erroneamente identificados como inimigos da humanidade.
Ao final, a médio prazo, espera-se, a razão se deverá impor e as forças internas da sociedade norte-americana saberá equilibrar a situação entre a histeria e o sangue frio.
Paradoxamente, o famoso artigo 5 do tratado da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) se converte agora em arma eficaz: um ataque contra um Estado membro deve ser interpretado como lançado contra todos. E este não é um atentado somente contra os Estados Unidos, por mais simbolismo que Wall Street e o Pentágono tenham no imaginário mundial.
É a hora de ação coordenada. E se revelará a verdadeira altura dos dirigentes. Os norte-americanos deverão atuar com energia e com calma; e no exterior se deverá oferecer o apoio sem fissuras.


- JOAQUIN ROY é catedrático de Relações Internacionais da Universidade de Miami (IPS)

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