Depois do óleo derramado, a nova gestão - Vilmar Berna
Depois do óleo derramado, a nova gestão
Vilmar BernaA gestão ambiental moderna das empresas parece que vai se dividir entre antes e depois do vazamento de óleo da Petrobras, na Baía de Guanabara, no dia 18 deste mês. Muitos acidentes com óleo já aconteceram, mas o que este tem de diferente é o fato de ter ocorrido numa era pós-ISO 14.000, quando as grandes empresas estão se orgulhando cada vez mais com as conquistas de indicadores ambientais positivos.
Não é como há dez anos, quando as empresas consideravam a questão ambiental mais como um ônus que um bônus, uma espécie de dificultador para os lucros e o meio ambiente era tratado compartimentalizado num setor distante da produção, onde os engenheiros e técnicos do setor ambiental eram vistos pelo pessoal da produção, considerada a área mais nobre do negócio, com um certo ar superior, e até um certo deboche. Era comum os engenheiros ambientais serem apelidados de alfacinhas.
Hoje, a questão ambiental está na pauta da alta direção das empresas. O presidente da Petrobras pós-acidente, por exemplo, declarou que avocou para si a diretoria de meio ambiente. Agora é ele quem responde pelo setor ambiental da empresa. No setor público também não está diferente. O presidente Fernando Henrique Cardoso declarou que estes três anos que faltam para complementar seu mandado serão dedicados à saúde e ao meio ambiente.
No Estado do Rio, outro exemplo: o próprio governador Garotinho envolveu-se pessoalmente nas negociações com a megapoluidora do Rio Paraíba do Sul, a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). Um cenário completamente diferente de dez anos atrás, quando no meio político corria o boato de que o setor ambiental era mais um castigo que um prêmio para os políticos, pois além de não dar voto, ainda tirava.
Algo está mudando na gestão ambiental tanto das empresas quanto dos governos. E mudando para melhor. Parece que os administradores públicos e privados compreenderam que o meio ambiente não deve ser tratado como uma caixinha isolada do negócio principal.
As empresas modernas devem se debruçar sobre o acidente lente de aumento, a fim de, através da análise do ocorrido, aproveitar para rever seu sistema de controle ambiental, procedimentos de segurança ambiental e, principalmente, rever seus sistemas de informação e a política de comunicação da empresa. E, neste item, o acidente da Petrobras pode ser rico em experiências.
A causa principal do acidente não foi uma falha no sistema de comunicação, mas erros no projeto, construção e instalação do duto. Esses erros foram apontados pela perícia técnica contratada pela Petrobras por ocasião do primeiro vazamento, no mesmo duto, em março de 1997, mas a Petrobras proibiu a divulgação do documento. Essa proibição talvez tenha sido o maior erro e o principal responsável pelo segundo vazamento. Sequer a Petrobras tomou a precaução de instalar sensores que indicassem e estancassem automaticamente a anormalidade no transporte do óleo, num duto já condenado. O segundo maior erro foi a falha de comunicação entre o pessoal que bombeava o óleo e o pessoal que recebia.
Existe um outro erro grave, em nível interno da empresa. A empresa não tentou minimizar o problema só diante da opinião pública, mas escondeu a informação do próprio presidente da empresa.
O grande desafio, agora, é transmitir para o segundo, terceiro e quarto escalões das grandes corporações, a mesma determinação da alta direção, baseada numa nova filosofia de respeito ao meio ambiente e transparência democrática da informação, pois não se faz mudanças por portaria ou apenas com a vontade da presidência. É preciso investir em treinamento e motivação do pessoal interno para mudar de uma cultura do nada a declarar para uma cultura do tudo a declarar, por que não devemos ter nada a esconder.
- VILMAR BERNA é editor do Jornal do Meio Ambiente, no Rio. Foi o único brasileiro a receber em 1999 o Prêmio Global 500 da ONU para o Meio Ambiente. E-mail: [email protected]





