Depois do Carnaval - J. Roberto Whitaker Penteado
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 19 de fevereiro de 1999
J. Roberto Whitaker Penteado 
Estive relendo as notas de uma palestra que fiz, em Salvador, no final de 1994, e que publiquei como artigo, na revista Marketing. Chamava-se O Plano e a Realidade e tratava-se de um longo comentário sobre o então recente Plano Real.
Não há nada mais antipático do que o eu não disse? Mas, de fato, o que disse aos baianos, durante um seminário da ADVB local, baseado na leitura de alguns analistas politicamente não-comprometidos e, em especial, de The Economist, foi quase exatamente o que aconteceu. Meu engano maior foi o tempo. Não pensava que aquela nova empulhação do governo pudesse durar - como durou - quatro anos.
A lembrança nostálgica não é importante, embora todo jornalista prefira acertar do que errar em prognósticos feitos enquanto as notícias assombram. O importante é que, tanto no Brasil quanto no exterior, existem intérpretes competentes dos planos e da realidade e, como ficou, agora, comprovado, tratava-se de prestar atenção.
O que eles diziam e eu apenas reproduzi, como palestra? Que era preciso lembrar de como a inflação nascera para acertar em como ela poderia terminar; que três décadas de inflação haviam camuflado o custo Brasil em índices que eram pagos pela população inteira, mas que ele apareceria, como apareceu, numa economia de preços estáveis e que não bastava estabelecer paridade da moeda nacional com o dólar sem fazer os demais reparos na estrutura do Estado.
A interminável inflação brasileira era, portanto, consequência - e não causa - de um círculo vicioso de mazelas que se traduziam em emissões contínuas de papel-moeda pelo governo. No primeiro ano da faculdade de Economia ensina-se que, se os meios de pagamento não mantiverem uma relação estável com o Produto Interno, haverá inflação e este é um aspecto que foi, simplesmente, esquecido, principalmente pela imprensa.
Mas, além de não emitir moeda papel, quais eram as outras medidas já tão evidentes em 1994? Não aumentar os impostos para não coibir o consumo e o desenvolvimento, mas cortar os gastos inúteis ou supérfluos da máquina administrativa, aumentando a arrecadação através do aumento de produtividade; privatizar as empresas estatais que davam prejuízo e iniciar, para valer, a reforma administrativa do Estado e o processo de representação política.
O que se viu, contudo, foi a vitória do virtual sobre o real, do discurso sobre as ações. A estabilidade da moeda assegurada através da taxa de câmbio e, esta, pela entrada dos capitais especulativos, atraídos pela elevada taxa de juros, e pelas reservas cambiais tomadas de empréstimo, mas que serviam de banca para o governo, sempre que faltava dólar na praça, como naquele antigo joguinho de Monopólio.
Continua sendo um problema, contudo, a nossa generalizada falta de competência em matemática, que permite o uso político do economês para ocultar os fatos em vez de revelá-los. Como a própria linguagem dos números, a economia é uma das muitas formas de descrever a realidade através de símbolos. Ela depende dos fatos, não os determina. Ao governo desonesto, quando é cobrado por ações, tem bastado recorrer à retórica.
Passado o Carnaval, em que as escolas de samba se encarregaram de lembrar nossas virtudes na arte da música - erudita e popular - temos os quatro anos entre dois séculos e dois milênios para refletir sobre os destinos do País e amaldiçoar o sistema de representação política que tem permitido a poucos enganar muitos de uma forma que parece permanente. Sim, pois, se no acidental governo Sarney foi possível manter a ilusão de estabilidade monetária durante alguns meses - até as eleições regionais - sem mexer nas contrapartidas econômica e administrativa; parece que, no não menos acidental governo Itamar, que gerou FHC, os homens aprenderam a fórmula para manter essa ilusão durante anos.
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é especialista em marketing no Rio de Janeiro


