O papa não morreu. Vida longa ao papa Francisco! Em 19/03/2024 o argentino, vindo “do fim do mundo”, completou onze anos como o 266º bispo de Roma. Para os desavisados, o papa é sempre em primeira mão o titular pela diocese de Roma. Não desmerecendo nenhum dos predecessores, que aliás foram excelentes pontífices, Francisco tem algumas peculiaridades que para uns são virtudes e para outros defeitos. No mundo polarizado em que habitamos, nem o Santo Padre escapa de severos julgamentos e objeções, com classificações rasteiras e perversas em muitos casos. Contudo, tanto quanto sei, o atual papa não se incomoda muito com isso!

Francisco é um “humilde operário da vinha do Senhor”, expressão cunhada por Bento XVI. Dedicado ao resgate do Evangelho como o grande parâmetro da missão da Igreja – aliás, ele afirmou em várias ocasiões que ela “não é uma ONG” e não tem nenhum outro objetivo que não seja evangelizar – como já o havia afirmado o Papa Paulo VI. Todos os assuntos pautados e as agendas defendidas só se entendem nesta perspectiva. O que Jesus faria e diria em 2025? Esta pergunta conduz a reflexão e as atitudes de Francisco. Nada mais! Refugiados que devem ser acolhidos e integrados, pobres que são o lugar privilegiado do “Corpo de Cristo” na história, meio ambiente que é a Casa Comum e que deve ser cuidada e não destruída, guerras mundo afora que são uma “terceira Guerra Mundial fragmentada”!

Francisco traduz a Boa Nova de Jesus em conceitos atuais que postulam evidentemente um antropocentrismo – o homem em primeiro lugar – mas que lhe atribui a tônica já anunciada por S. João Paulo II quando defendia um “humanismo cristão”. Este papa não “inventou a roda”, é claro! Mas a roda, com este papa, desliza suavemente pelos trilhos que a história da Igreja (nomeadamente os últimos papas) construiu! Não existe heresia em Francisco!

O que mais atrai nele é a experiência existencial de quem proclama a misericórdia, a empatia, a abertura a todos e a fraternidade universal como a base do cristianismo, radicado no Evangelho. A misericórdia não é um detalhe na Bíblia! Ela reflete o rosto de Deus em Jesus. O papa prefere uma Igreja “enlameada e ferida”, mas em diálogo com a sociedade e o mundo, a uma “Igreja engomada na sacristia”! Combate a autorreferencialidade da Igreja. Ele é polêmico; quando lhe perguntaram sobre o uso de preservativos, respondeu: “não gosto de descer a reflexões de casuística, quando as pessoas morrem de fome e de sede”! Nele existe o frescor do Evangelho, sempre posto à prova nos caminhos da história.

Porque os conservadores, alguns da extrema direita, abominam Francisco? A resposta não pode ser simplista, por óbvio. Mas para os saudosistas de uma Igreja forte como instituição, mais “magistra do que mater” (“Mater et Magistra” é o nome de uma encíclica do Papa João XXIII), Francisco é “desastroso”! Não há dúvida que ele derruba o “glamour” de uma Igreja que durante séculos se revestiu de plumas e valorizou cargos clericais em detrimento dos leigos e nomeadamente das mulheres. Os extremistas dizem defender a doutrina, a “pura doutrina”, sempre em forma de apologética; no entanto, é a performance que mais os incomoda! Di-lo o próprio Francisco: “corações fechados que se escondem atrás dos ensinamentos da Igreja, para se sentar na cátedra de Moisés e julgar as famílias feridas”! São os métodos que os incomodam e não o conteúdo! Mas, para efeitos de demolição, acusam-no de “herege”!

O próximo Conclave, que já teve um spoiler no cinema, revelará dois mundos num embate sério! De um lado, os que acreditam nas teses de Francisco, como o verdadeiro patrimônio católico, alicerçado no Evangelho e no Vaticano II. Do outro, os que buscarão impor um catolicismo mofado e arcaico, aliado aos poderosos do mundo que estão tomando o poder. Trump inclusive. Quem viver verá! Até lá, vida longa ao papa!

Padre Manuel Joaquim R. dos Santos, Arquidiocese de Londrina

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