São Paulo- Em Rio Maria, no sul do Pará, o advogado e frade dominicano Henri Burin des Roziers, de 73 anos, comemorou na semana que passou uma pequena vitória. Depois de 16 anos de espera, a Justiça paraense marcou a data do julgamento dos dois acusados de serem os mandantes do assassinato do sindicalista rural João Canuto de Oliveira, ocorrido em dezembro de 1985.
Ao sair do sindicato onde trabalhava, destacando-se na defesa de posseiros da região, Canuto foi atingido por 18 tiros desferidos por pistoleiros profissionais, que teriam agido a mando de Adilson Carvalho Laranjeira, ex-prefeito de Rio Maria, e do fazendeiro Vantuir Gonçalves de Paula. Os dois deverão ser julgados nos dias 22 e 23 de maio.
O caso da morte de Canuto teve repercussão no Brasil e no exterior. Uma comissão de advogados de renome, entre eles o atual ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, ofereceu-se na época para acompanhar a acusação.
OEA - Diante da lentidão do inquérito e do processo, em 1997 a Comissão de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) acusou o governo federal de omissão no cumprimento da lei. Dois anos depois, em 1999, chegou a condenar o governo.
Para frei Henri, enviado à região pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) em 1991, com a tarefa de se dedicar ao acompanhamento do inquérito policial e do processo que envolvia o assassinato do sindicalista, o julgamento representa um passo contra a impunidade que, segundo ele, impera na região. O frei conta que depois do sindicalista foram assassinados dois filhos dele e o seu sucessor no sindicato, Expedito Ribeiro de Souza.
De acordo com informações da CPT, no sul e no sudeste do Pará, de 1980 até agora foram assassinados mais de 400 trabalhadores rurais por questões de terra. Até agora, apenas um mandante destes crimes teria sido julgado e condenado. Daí a importância, segundo frei Henri, do julgamento marcado agora.
O frei dominicano está convencido de que os acusados de serem os mandantes do assassinato do sindicalista só estão indo a julgamento por causa de pressões externas. ''Sem a pressão da sociedade civil organizada, no Brasil e no exterior, não teríamos julgamento'', argumenta frei Henri, que se formou em direito na França e desde 1984 tem licença para advogar no Brasil.
Fugas - Ele observa que quando se consegue superar a precariedade da Justiça e levar algum criminoso à prisão, nem sempre ele fica lá: ''O pistoleiro condenado pela morte do sindicalista Expedito, por exemplo, fugiu da cadeia de Marabá e reapareceu aqui em Rio Maria em 2001, espalhando o terror'', conta.
Os pistoleiros que executaram Antonio Canuto também foram presos e condenados, mas fugiram e nunca mais foram localizados. Diante dos conflitos, a região foi considerada prioritária para o programa de reforma agrária, no governo de Fernando Henrique Cardoso - o que ajudou a reduzir a violência.

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