DEPOIS DA TRAGÉDIA - O trabalho continua
PUBLICAÇÃO
domingo, 24 de janeiro de 2010
Rosiane Correia de Freitas<br>Equipe da Folha 
Curitiba - Quando foi convidada a assumir a coordenação nacional da Pastoral da Criança, em 2007, a irmã Vera Lúcia Altoé sentiu-se desesperada. ''Eu me sentia tão pequena'', conta. A ela caberia a missão de substituir Zilda Arns na liderança de mais de 260 mil voluntários em todo o país num processo de transição promovido pela própria fundadora da Pastoral.
Foi ao pensar nos voluntários que a religiosa percebeu que não estaria sozinha. Dois anos depois de assumir a coordenação da entidade, irmã Vera está diante de um novo desafio: conduzir a Pastoral sem o apoio de Zilda Arns, morta no último dia 12, no Haiti. É com a força dos voluntários que ela pretende contar novamente. ''Nosso principal patrimônio são as pessoas. Não tem dinheiro que pague o que as nossas líderes fazem para levar vida às crianças'', declara.
Como foi sua escolha para assumir a coordenação da Pastoral?
Conheci a Pastoral num momento em que estava morando no Jardim Vitória, em Cuiabá. Trabalhava de manhã nas nossas escolas (da Congregação da Imaculada Conceição), mas tinha as tardes livres. Foi quando irmã Ada me convidou para trabalhar na Pastoral. Já estou há 12 anos nessa missão.
Em 2007, a Assembléia Nacional da Pastoral da Criança passou a discutir a sucessão por iniciativa da doutora (Zilda Arns). Ser coordenadora nacional é um cargo de confiança e eu fui indicada pelas coordenações dos estados, pela doutora Zilda e pelos conselhos. Foi um momento delicado. Não pensava em sair do Mato Grosso. Lembro que passei uma noite desesperadora. Me achava tão pequena. Sempre admirei o porte da doutora Zilda, o envolvimento político, e me achava muito pequena diante dela. Então lembrei de uma passagem bíblica - ''Nunca Eu jamais abandonarei você'' - e dos 260 mil voluntários, e vi que não estava sozinha.
Como foi assumir o lugar que era de Zilda Arns?
A minha maior dificuldade não foi de lugar porque o lugar de fundadora sempre será dela. Todo o trabalho da Pastoral foi muito bem consolidado. Tem que respeitar muito e eu reconheço que esse é um símbolo grande. Sei que o meu tempo é esse. No Mato Grosso também tive essa experiência quando substitui a irmã Ada (coordenadora estadual da Pastoral). Já estamos nesse trabalho há dois anos e está indo bem.
Como fica a Pastoral agora?
Acho que o Brasil não estava preparado para essa perda (de Zilda Arns). Por outro lado, acho que ela foi muito sensata em todo o processo de consolidação do trabalho. Hoje estamos em atitude de gestação, ainda processando essa grande perda para então poder dar os próximos passos para organizar principalmente a Pastoral da Criança Internacional e a Pastoral da Pessoa Idosa, que estavam sob a coordenação da dra. Zilda.
Por enquanto as assessoras dela nessas duas instituições estão respondendo às demandas que chegam. Já a sucessão é algo que ainda vamos conversar. Não sabemos como vai ser. Creio que poderão ser indicadas pessoas distintas para cada uma dessas pastorais. Tanto a Pastoral Internacional quanto a da Pessoa Idosa são independentes da Pastoral da Criança. Mas vamos ajudá-las a fazer esse discernimento. Claro que a gente se sente responsável por elas.
Tenho em mim que a cada momento Deus suscita profetas. A doutora Zilda tinha um carisma próprio. Acho que igual a ela seria pedir demais, mas há pessoas preparadas para seguir nessa missão. Já na Pastoral da Criança o caminho já está traçado. A doutora sempre teve esse sentimento muito forte. Ela sabia que, assim como eu, não ia ser eterna e que outras pessoas virão.
Qual o significado da morte de Zilda Arns para a continuidade do trabalho da Pastoral?
Acho que a morte dela foi um coroamento. Ela tinha que morrer num impacto como esse para sensibilizar o coração de muita gente para com o sofrimento e a carência das crianças pobres.
Há um comprometimento da entidade com o Haiti?
Temos um compromisso com os pobres daquele país. Acho que temos a obrigação e o dever de trabalhar por eles. A própria doutora Zilda falou durante a viagem pelo Haiti que sabia que (o país) era pobre, mas não sabia que era tão pobre quanto ela estava vendo.
Houve uma queda na arrecadação de doações para a Pastoral em 2009. A que a senhora credita isso?
No ano passado não só a Pastoral, mas todas as entidades sociais sofreram com a crise. Mas apesar disso a queda não foi tão grande. A gente sentiu a crise que afetou o país e que as empresas, as pessoas estavam economizando. Mesmo as paróquias, as comunidades em que atuamos também seguraram seus gastos, economizaram.
Este ano, nesse momento que vivemos, sentimos que muita gente foi sensibilizada e que está nos procurando para doar. Quem pode a gente sabe que doa. Não vamos perecer por falta de recursos. O dinheiro nos ajuda e é sempre bem-vindo. Mas é bom que se destaque que nosso grande recurso são as pessoas, os voluntários. Eu fico sempre muito feliz quando encontro nossas líderes. Não tem dinheiro que pague o que as nossas líderes fazem para levar vida às crianças.
Quais são os novos desafios que a Pastoral da Criança está enfrentando no Brasil?
Hoje temos um grande desafio que é o incentivo as hortas caseiras, que é uma forma de garantir acesso a alimento nutritivo e barato às famílias. Falta qualidade na alimentação das crianças. Temos que trabalhar para que as políticas públicas garantam que todos os postos de saúde tenham antibióticos disponíveis para a população, principalmente as crianças. Temos uma preocupação em ensinar as crianças a voltar a brincar, sair do sedentarismo. E continuamos o trabalho de levar informações simples às mães que podem evitar a morte de crianças, como a campanha que ensina a deixar o bebê dormir de barriga para cima.


