DEPENDENTES DE APOSTAS - Compulsão por jogo merece tratamento
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 27 de abril de 2011
Fernando Rocha Faro <br> <br> Reportagem Local 
Roleta, bingo, loteria. Jogos de azar são um hábito arraigado e fazem parte da rotina de muitos brasileiros. O problema é que o que começa como lazer e divertimento pode transformar-se num perigoso vício.
Os jogadores patológicos enfrentam tanta dificuldade para conseguir controlar a compulsão e para obter tratamento quanto os viciados em álcool ou outras drogas. Ou até mais. Mas é possível tratá-los.
O vício do jogo, de acordo com a psicanalista Soraya Hissa de Carvalho, de Belo Horizonte, é um transtorno obsessivo compulsivo. Isso significa que pode ser controlado com medicação, terapia individual e em grupo. O acesso, no entanto, é difícil. ''Gostaria que houvesse cada vez mais grupos com direcionamento para o jogo compulsivo para que as pessoas pudessem entender o problema e falar a cada dia: 'Hoje não joguei''', reivindica a especialista.
E além de não oferecer tratamento adequado, o poder público ainda vai na contramão do combate ao vício, uma vez que mantém jogos como as loterias, que ainda representam uma fonte de arrecadação de recursos para os governos.
Por que o jogo pode causar dependência psicológica? Essa dependência pode ser comparada a vícios como o álcool ou as drogas?
Em primeiro lugar, o jogo é uma das formas do Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC). Então, o vício em jogo não funciona pelo ponto de vista cerebral do vício em drogas e álcool, ou seja, nos mesmos circuitos cerebrais. Mas a função tanto da dependência química como de jogos sempre é do reforço do prazer através da repetição. Ou seja, quanto mais joga ou usa aquela química, mais quer.
Temos que partir do princípio que o TOC tem componentes genéticos associados ao meio ambiente. A pessoa não consegue largar o vício do jogo. Existe toda a recompensa e a ilusão de enriquecimento. Isto causa uma satisfação muito grande quando a pessoa joga. Não é nem o ganhar, é o jogar. Por isso, quando se perde, a vontade de repetir para ver se consegue ganhar e ter mais prazer é enorme.
Como identificar quando o hábito de jogar é um problema grave?
Quando o indivíduo começa a jogar e não consegue parar. Ele tem que jogar sempre. O TOC é configurado quando não se consegue parar, independentemente se vai ter recompensa ou não, se há uma aposta em jogo ou não. O importante é saber se a pessoa tem controle sobre si mesma ou não. Às vezes ela não aposta dinheiro, mas não tem controle sobre si mesmo, não consegue parar, não consegue largar o computador ou as cartas, tem que jogar com muita frequência e não consegue parar. O limite -a diferenciação entre um jogo prazeroso e o que é patológico -está na capacidade de se controlar.
Quais efeitos físicos o jogador compulsivo apresenta quando não pode apostar?
Ele sofre efeitos como taquicardia, suor, frio, ansiedade, impulso, dor de cabeça. Quando joga, alivia tudo.
O vício em jogo é um transtorno raro ou muita gente enfrenta o problema?
O problema é muito comum. Não temos dados concretos porque as famílias não percebem isso ou, às vezes, omitem os casos. Também existe uma cegueira social muito importante em relação a aposentados e a pessoas da melhor idade. Eles não têm nada para fazer e acham que jogar é bom porque diverte. Não tem nada disso. Muitos entram em dívidas que não têm condições de pagar e essas dívidas são transferidas para familiares.
Mas não é possível jogar com responsabilidade, sem que o divertimento transforme-se em problema de saúde?
Sim. Desde que você saiba seu limite e não tente ultrapassá-lo. Se tiver controle, não é viciado. Se não tiver a necessidade de repetir com obsessão a ação compulsiva de jogar, não é considerado um doente, um jogador patológico. Se, mesmo não apostando, não consegue ter controle sobre si mesmo, então é considerado (um jogador compulsivo).
Sem jogar, o compulsivo fica muito ansioso, com a ideia obsessiva. Tem uma espécie de adrenalina que precisa ser gasta. Só que é uma energia que poderia ser usada para uma ação positiva.
Qual é o grau de responsabilidade do poder público em relação ao vício do jogo, uma vez que o próprio Estado mantém jogos como loterias?
A responsabilidade é do incentivo, principalmente porque as loterias representam uma fonte de lucro, de arrecadação. Deveria haver uma política pública de combate a todo tipo de jogo patológico. Não adianta a demagogia de falar que o bingo e os caça-níqueis são proibidos se não proibir aquilo que é lícito hoje, como os jogos todos das casas lotéricas.
Então a senhora é contra a legalização do jogo no País.
Sou totalmente contra. Deveria haver um controle maior ainda. Sou a favor da educação, do tratamento e do investimento na profilaxia. Da mesma forma que é feito para que as pessoas evitem o sexo inseguro, para que evitem as drogas, deveria ser feito também para que as pessoas evitem o jogo. Há situações que são aparentemente lícitas e inofensivas, mas causam transtornos gravíssimos na vida da pessoa e da família.
Exemplos são vários de crianças e adolescentes que abandonam a escola e ficam na frente do computador jogando. O comportamento da criança e do adolescente muda, eles passam a ser mais agressivos.
Há tratamento para jogadores compulsivos? Como isso é feito e qual são os resultados alcançados?
Sim. É feito com o uso de medicamentos, terapia comportamental e de grupo, em instituições semelhantes aos alcoólicos anônimos. Assim as pessoas podem dividir as experiências, as dificuldades de recuperação. Sempre podem ocorrer recaídas, mas ao longo do tratamento há uma diminuição desse vontade. Por isso, o tratamento deve ser contínuo e deve ser levado muito a sério.
Gostaria que houvesse cada vez mais grupos com direcionamento para o jogo compulsivo para que as pessoas pudessem entender o problema e falar a cada dia: ''Hoje não joguei.''
E queis são os tratamentos ofercidos pela rede pública de saúde?
Na rede pública, temos o atendimento com psiquiatras e psicólogos nos postos de sa© úde. Não é aquele atendimento como deveria ser. Quem tem plano de saúde ou acesso a um profissional especializado tem vantagens, mas esses tratamentos são bastante onerosos. Deveria haver uma ação pública mais intensa sob esse aspecto.


