DEPENDÊNCIA QUÍMICA - Para combater o alcoolismo, família deve mudar hábitos
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 16 de junho de 2009
Herika Fondazzi<BR>Reportagem Local 
O alcoolismo é uma doença que afeta quase um quarto da população e traz problemas físicos e psicológicos para doentes e familiares, além de perdas econômicas para empresas e governo. E o pior: deixar o álcool é uma tarefa difícil - apenas cerca de 20% dos dependentes que buscam ajuda conseguem vencer o vício.
A FOLHA conversou com a psicóloga Simone Oliane sobre o papel da família no processo de recuperação. Segundo ela, familiares devem mudar seu comportamento em relação ao dependente para ajudá-lo.
Quando podemos dizer que o consumo do álcool deixou de ser social e se transformou em um caso de dependência?
Se pensarmos em toda a população que consome álcool, 60% não terá problemas e será um bebedor social. Cerca de 20% irá se tornar bebedores pesados e terá algum resultado nocivo por conta do consumo excessivo. Os outros 20% são aqueles que apresentarão problemas físicos severos e dependência química.
Como se caracteriza a dependência?
Alguns fatores devem ser levados em conta. Primeiro, a pessoa deixa de beber pelo prazer e passa a pensar no efeito do álcool. Segundo, a pessoa bebe quantidades muito grandes para sentir o efeito e bebe muito rápido. Por fim, o dependente não consegue dizer ''não'' ou parar de beber. Mas o desenvolvimento da doença é traiçoeiro, porque o indivíduo no começo consegue trabalhar e levar uma vida normal. Em média, o alcoolismo leva de dez a 15 anos para se desenvolver nos homens - cinco anos, no caso das mulheres.
É difícil também para a família perceber que a pessoa é ou está se tornando dependente?
A família apresenta um comportamento parecido com o do dependente. Ela nega a existência de um problema e tenta proteger o familiar das consequências nocivas do uso de álcool. É comum colocar a culpa do uso de álcool em alguma circunstância, como uma briga com a namorada, ou dizer que foi algo esporádico. Para proteger o dependente, os familiares mudam suas rotinas, deixando de ir a festas e locais onde existe a bebida, pagam as contas do dependente, não denuncia eventuais atitudes de violência.
Como fazer o dependente perceber a existência de um problema que precisa ser tratado?
Na maioria das vezes os familiares ficam dando sermões. Isso não funciona. O que precisa ser feito é descrever para a pessoa seu comportamento inadequado depois que o efeito do álcool passa, porque durante o efeito o dependente não reconhece o problema. Além de apontar os atos ruins, deve-se deixar que as consequências cheguem até a pessoa e então propor ajuda para superar a dependência e o uso abusivo. Mas a pessoa só faz um tratamento quando quer. Fazer confronto, ficar controlando as atitudes e tratar o dependente como um fraco não ajuda.
Como é possível colaborar com o tratamento?
A família precisa começar a cuidar mais dela e menos do outro, não aceitar promessas, não admitir agressões físicas ou verbais e deixar que as consequências negativas cheguem ao dependente. É importante também buscar ajuda em locais adequados para saber como lidar com a situação. Em Londrina existem várias opções para quem convive com dependentes, tanto em álcool como outras drogas: Alcóolicos Anônimos (AA), Amor Exigente, Fundação Tamarozzi, Meprovi, Casa de Maria. Ajuda especializada de médicos e psicólogos, tanto para familiares quanto para o dependente, é fundamental para superar o alcoolismo.
É possível evitar o alcoolismo com atitudes de prevenção ou algumas pessoas desenvolvem a doença mesmo bebendo pouco, devido ao fator genético?
Existe uma corrente que afirma que 25% das pessoas que bebem desenvolvem dependência por causa de uma tolerância diferente para a metabolização. Então quem tem familiares de primeira ou segunda geração com dependência é melhor tomar cuidado. Outro aspecto é o ambiental. Se a bebida é valorizada e de fácil acesso, a pessoa vai consumir com mais frequência e vai haver uma adaptação metabólica e um aprendizado de beber. O histórico pessoal de resolver problemas usando a substância também colabora com um possível desenvolvimento do vício.


