A dependência química é um dos principais males do mundo moderno, mas ainda não é tratada no Brasil como um tema de saúde pública. A falta de investimento governamental impede a formação de uma rede de apoio a dependentes e familiares. O publicitário e formando em Psicologia, Frederico Augusto do Prado Nogueira, criou o Projeto Londrina Viva (Prolov) após um drama pessoal há 12 anos. Hoje, a entidade - que não tem apoio do poder público - atende a 15 jovens em recuperação. Nesta entrevista, ele conta que Londrina não possui centros de recuperação para meninas e adolescentes - a não ser em clínicas particulares.

Dá para dimensionar o consumo de drogas?
A gente sabe que Londrina passa por uma situação terrível, é uma das cidades que per capita tem um dos maiores usos de droga no sul do país - é Curitiba, Londrina e Porto Alegre. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a dependência atinge diretamente 10% da população nas cidades ocidentais. Se colocar três ou quatro familiares que se relacionam com os dependentes, você chega a um conjunto extremamente amplo de gente sofrendo de depressões e stress.

Como é a relação da família com o dependente?
Tem pessoas que não querem ver, não por maldade, mas porque realmente é terrível de ver. Agora, a gente tem que enfrentar de frente e nunca desistir de um dependente químico. A família tem que acreditar sempre. Ás vezes na primeira tentativa não deu, na segunda ou na terceira também não deu, mas de repente a coisa acontece. Eu vi muitos casos acontecerem e essas pessoas se tornam depois multiplicadores de recuperação, entram em lugares que ninguém entra para tirar outros caras da droga. É um processo progressivo.

Há ''tratamento'' para a família?
Sim, a dependência química é a doença da família, todos os ficam 'doentes' junto. As histórias ligadas ás drogas são sempre muito pesadas, tem toda uma questão de decepções, de culpa, vergonha, tudo isso se soma de maneira muito grande. As mães, pais e esposas têm que ser preparados para intervir nesse processo. A gente sempre recomenda que eles participem do Amor Exigente, que é uma entidade que busca desenvolver a qualidade de vida das famílias e tem experiência em lidar com isso.

Como surgiu o Prolov?
Há doze anos a gente viveu de perto a questão da dependência química e em Londrina não havia lugar para recuperação, a não ser em clínicas luxuosas. O Prolov é um sistema universal de recuperação onde a pessoa trabalha através do desejo de se recuperar, junto com um grupo. Eles são encorajados a viver o processo de um ajudar o outro, e isso vai fazer com que a recuperação aconteça. A finalidade não é só recuperar dependentes químicos, mas também atuar na prevenção da dependência e levar qualidade de vida para as comunidades. No dia a dia, tem muita dinâmica, laborterapia, oração - porque espiritualidade é fundamental nessa modalidade de tratamento. Esse sistema, não medicamentoso, é o que mais funciona no mundo porque traz princípios universais e essa maneira coletiva de interagir transmite uma força muito grande.

Você é a favor da restrição às propagandas de bebidas alcoólicas - a exemplo do cigarro?
Sabe, essas propagandas não são feitas para pegar adultos, é para pegar o adolescente e formar novos consumidores. Porque o adolescente está mudando de fase, da infância para a vida adulta, aquela coisa toda, se acha meio 'feião', então a propaganda sugere que se ele toma uma cerveja, as gatinhas vão chegar do seu lado. E tem aquela frase, não existe mulher feita, existe o cara que bebeu pouco (risos)... Então ele soma tudo e acha que é aquilo mesmo.

Serviço:
Informações ou donativos (material de construção) para o Prolov: (43) 3322-1710.

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