Dependência fabricada
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de março de 1997
Antônio Delfim Netto 
O problema da dívida externa brasileira, que tantas emoções despertava no início dos anos 80, não merece hoje muitas atenções apesar da dívida bruta atual ser quase duas vezes maior. Mas é uma questão digna de preocupação, não apenas pela velocidade do crescimento como pelas circunstâncias em que isso se realiza. Naqueles anos, no auge da crise mundial deflagrada pelo aumento dos preços do petróleo, a dívida brasileira chegou a representar, no seu ponto máximo, um valor equivalente a três vezes o valor das exportações brasileiras. A dívida de hoje se encaminha para um valor quatro vezes superior ao das exportações anuais. De 1985 até nossos dias, o endividamento cresceu de 95 bilhões para 170 bilhões de dólares, ou seja, quase duplicou. Isso apesar dos preços do barril de petróleo terem baixado de 34 dólares para 18 dólares, praticamente à metade em dólares nominais.
Naquele período de grandes dificuldades da economia mundial, a questão da dívida se transformou numa bandeira dos partidos de oposição. Era uma vergonha para a Nação, como diria um competente âncora da TV. Acontece que não havia opção. O abastecimento de petróleo tinha que ser mantido, era pago à vista e a única forma de fazê-lo foi buscar empréstimos no mercado financeiro internacional. O desabastecimento seria o caos da economia. Assim, os empréstimos mantiveram a economia funcionando durante os 10 longos anos de crise (1974/1984), quando o preço subiu de 1,65 dólar o barril para 34 dólares.
Para criar condições de pagamento dos empréstimos foi feito um grande esforço para ampliar as exportações. Elas cresceram quatro vezes e meia em valor nos anos de crise, passando de 6 bilhões para 27 bilhões de dólares anuais. Em 1984, o país já acumulara saldos comerciais de 17 bilhões de dólares, após 2 anos seguidos em que a taxa média de crescimento das exportações foi de 15%.
A crise do petróleo é coisa do passado; a recessão mundial que ela produziu (inclusive seus efeitos no Brasil) também é coisa do passado. Há crescimento econômico nos países industrializados - que são os nossos maiores clientes - e o comércio mundial se expande. Mas as exportações brasileiras só conseguem crescer pouco mais de 2% ao ano e o baixo crescimento do PIB é insuficiente para dar trabalho aos brasileiros, enquanto que a dívida externa disparou. Com muita sorte, o primeiro mandato do nosso simpático Presidente se encerrará com uma dívida externa bruta de 200 bilhões de dólares. Cada brasileiro, agradecido, o reelegerá, sabendo que carrega consigo uma promissória de 1.200 dólares para saldar nos anos seguintes. Argumenta-se que não é o caso de dramatizar o problema porque hoje somos um país de moeda estável, gozamos da confiança do mercado financeiro internacional e nossas reservas somam 60 bilhões de dólares. Tudo isso é certo, mas assim mesmo a conta de juros pagos no ano passado já representa algo próximo de 20% do valor de nossas exportações. Como as exportações continuam estagnadas e os déficits do comércio exterior são crescentes, a situação vai ficando desconfortável.
A verdade é que estamos permitindo que se estabeleça uma situação de dependência externa que a cada dia reduz os graus de liberdade na execução da política econômica. Sem nenhuma necessidade, passamos a depender dos humores do mercado financeiro internacional. Toda vez, por exemplo, que a economia ameaça crescer um pouquinho mais - única via pela qual podemos dar emprego aos nossos trabalhadores e melhorar a distribuição da renda - acende lá fora a luz vemelha do déficit comercial. É o que está ocorrendo agora, obrigando o nosso governo a estudar medidas para desaquecer a economia, o que significa conter o consumo, desestimular a produção e manter altas taxas de juros. É preciso exigir do governo que venha a público explicar em nome de quê e em benefício de quem se mantém essa política!
Pior do que passar vergonha é submeter nossa gente à vergonha do desemprego, sem esperança do retorno ao mercado de trabalho.
- ANTÔNIO DELFIM NETTO é deputado federal (PPB-SP).


