Abundância de chuva e pesados investimentos são as explicações para a reversão do quadro de racionamento de energia que a população brasileira enfrenta desde o segundo semestre de 2001. Ótimo, seria a avaliação a ser feita a partir de uma análise sem aprofundamentos e em tom puramente eufórico. Mas a divulgação de uma previsão tão otimista, poucos meses depois dos apagões terem prejudicado o ritmo de produção de empresas instaladas em algumas regiões, com consequências significativas para o País, não deve ser aceita passivamente.
Como é possível um guadro de gravidade desesperadora mudar de uma semana para outra? Reportagem publicada por este jornal ontem, em sua página de Economia, diz que ‘‘o Brasil poderá sair da situação de racionamento para excesso de energia elétrica já a partir de 2003 devido à conjugação de vários fatores’’. Estariam entre as causas desse milagre as chuvas, porque o clima, neste início de 2002, está sendo generoso e, melhor ainda, ‘‘caindo no lugar certo’’, conforme acompanhamento do Operador Nacional do Sistema (ONS), que administra a oferta de energia no País. Outro dos fatores seriam os altos investimentos realizados no setor, principalmente pela iniciativa privada.
E, neste ponto, há uma previsão do Ministério das Minas e Energia de que se investirá R$ 43,4 bilhões até 2004, incluindo algumas obras iniciadas no ano passado, dos quais 78,5% são da iniciativa privada. Assim, a capacidade de geração de energia no Brasil atingiria 103,7 mil MW, quando a atual é de 75 mil MW de acordo com números do ano passado, quando o racionamento tornou-se pesadelo na vida do brasileiro. E o Brasil se consolidaria como um dos maiores parques geradores do mundo, pois hoje ocupa a quinta posição abaixo dos Estados Unidos, com 900 mil MW; Alemanha. com 115 mil MW; França, com 110 mil MW, e Inglaterra, que no final de 2001 detinha capacidade semelhante ao brasileiro, de cerca de 75 mil MW.
Não há dúvidas que estes investimentos são importantes e que muito antes deveriam ter sidos alavancados. A preocupação com a suficiência no setor de energia não poderia ocorrer somente agora, depois que os apagões criam temor e expectativas negativas. E se um plano de investir no setor só surgiu agora, fica reforçada a posição já defendida, no início do ano, neste espaço, da necessidade de um planejamento do governo para evitar sustos. Quanto às chuvas, na atual circunstância chega a ser hilariante considerar que tal fenômeno, em um piscar de olho, reverta uma situação que parecia exigir solução a longo prazo. Isso confirma que, além de planejamento, falta também análise com resultado mais coerente. A população não pode ficar sujeita a esse tipo de previsão.

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