Graves casos de atentado contra a saúde ocular do brasileiro estão se passando dentro de algumas óticas do País; e torna-se necessário que sejam levados ao conhecimento da população para o saneamento deste setor, impedindo danos e má conduta para com os olhos da Nação.
Fato número 1: recebo, em meu consultório, uma jovem de 24 anos, querendo trocar suas lentes de contato. Ao final do exame oftalmológico, uma curiosa constatação: a paciente está com baixa de visão no olho direito e não tem nenhum grau que justifique o uso de óculos ou de lentes de contato. E ela estava usando lentes de contato, alternando com óculos. Quem prescreveu? Um ótico, em alguma ótica da cidade de Uberlândia. E agora para a paciente, procurando o médico, ficou constatado ser portadora de lesão grave no nervo óptico, com provável origem neurológica. Por se tratar de doença grave e silenciosa, o alarme não veio nem da paciente e nem de sua família: foi o namorado que desconfiou da deficiência visual da companheira. Além de pagar pelos óculos e lentes de contato (sem nenhuma indicação), houve imenso retardo no diagnóstico final da paciente; e ela, doravante, vai amargar gastos com exames complementares e outros procedimentos médico-hospitalares, num sofrimento e angústia que apavoram e afligem todos em sua volta.
Fato número 2: uma estranha e prejudicial mania de trocar receitas oftalmológicas está tomando conta de algumas óticas em nossa cidade, prejudicando pessoas, prejudicando profissionais bem intencionados, promovendo gastos desnecessários e confundindo alhos com bugalhos. Se de médico e louco, todos temos um pouco, o que se constata, para ampla denúncia e alarde, é que algumas pessoas, sem nenhuma formação médica, estão tratando as pessoas como se médicos e especialistas fossem, e sem nenhum rubor na face. Querem porque querem receitar e vender. Não querem é enfrentar o pesado vestibular e nove anos de estudos superiores. Vale até trocar a receita do médico por conta própria, pouco interessando a necessidade e o bolso do cliente. São charlatães atuando em ambientes refinados e tendo, como pano de fundo, toda uma parafernália eletrônica; esnobando, junto aos leigos e desinformados, a origem ‘‘importada’’ de tanta besteira e fanfarronice. Nesta semana atendi um cliente, para o qual receitei óculos simples para perto (vulgarmente ‘‘vista cansada’’); e qual não foi minha ojeriza ao ver a ótica enfiando pela goela abaixo do coitado, sem nenhum prurido na consciência, um par de lentes Varilux Comfort (lentes caríssimas), atropelando e desrespeitando a receita médica. E usam dos mais estapafúrdios, para não dizer criminosos, argumentos para a venda da mercadoria, num jogo desleal e insincero para com a saúde ocular da população. Ainda me lembro bem de um paciente, com salário de R$ 800 mensais, casado e 2 filhos; de uma receita médica para óculos simples e baratos, a ótica empurrou nele R$ 960 em três óculos, quando um só bastava. Tudo em nome da vaidade e da falta de visão social destes balconistas mercenários.
O objetivo destas linhas é alertar toda a comunidade para ficar de olho vivo com esta turma do exercício ilegal da medicina; e que as autoridades competentes possam tomar conhecimento de que coisas desta natureza acontecem numa cidade tão importante como Uberlândia, e em quase todas as cidades brasileiras, assolando e abusando de leigos. Nada mais sério e importante para o ser humano do que ser assistido e orientado por bons e competentes médicos. É para isto que o Brasil está despontando como um dos maiores líderes mundiais da Oftalmologia.
- RENZO SANSONI é médico oftalmologista em Uberlândia

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