Denise Rothenburg
Briga de
comadres
Em casa que falta pão, todo mundo briga e ninguém tem razão. A discussão entre governo e oposição em torno da venda da Telebrás é um grande exemplo do ditado popular. Luiz Inácio Lula da Silva e seu vice, Leonel Brizola, partiram para o ataque sem dados concretos. O governo ficou na defensiva, sem apresentar números consistentes.
Lula e Brizola foram taxativos: a empresa tem um patrimônio que vale muito mais que os R$ 13,4 bilhões que o governo pede. Esqueceram-se do óbvio: a Telebrás não pertence apenas ao governo. Se alguém é sócio majoritário de um restaurante que vale R$ 500 mil e quiser vender a sua parte, é óbvio que terá que pedir um valor inferior ao preço global.
O Executivo, por sua vez, manteve a sua defesa restrita às obviedades relativas ao preço mínimo. Nesta semana mesmo, o ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, dizia que Brizola não sabia do que estava falando e anunciou que o governo pode conseguir até R$ 16 bilhões pela empresa por causa do ágio que os interessados oferecem num leilão.
O mesmo governo que foi à TV explicar em rede nacional o que fez para conter a greve das universidades - diga-se, de passagem, ainda sem sucesso - não fez o mesmo para dizer como venderá a Telebrás, transformando o economês em português claro e transparente ao grande público. Poderia apresentar números relativos a lucro da empresa, planilha de custos, investimentos feitos.
Esses dados, divulgados em entrevistas coletivas, ficam restritos a especialistas na área econômica, que não atingem 5% daqueles que lêem jornais!
Maus hábitos começam a dominar a campanha eleitoral deste ano: a oposição acusa, sem dados, e o governo, tropeçando na comunicação, não consegue levar à população o que faz de concreto e o porquê de suas ações. O público fica sujeito à troca de xingamentos entre o presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), e Leonel Brizola - um show de grosserias que não contribui em nada para esclarecer o eleitorado e a população sobre as propostas de cada candidato.
A população cansou da campanha-tiroteio. Não quer o blablablá de fulano é esclerosado, beltrano é de lama. Quer propostas claras de geração de emprego, acesso a um bom sistema de saúde, educação, financiamento da agricultura. Desenvolvimento associado a uma proposta de política econômica. Quer também saber o que realmente será privatizado, como será, e ter garantias de que o serviço prestado será de boa qualidade, seja ele público ou privado.
Esse parece ser o grande desafio dos candidatos. Desafio do governo, que terá que ser transparente e ir à telinha explicar o que fez e o que pretende fazer. Desafio da oposição, que, em vez de atacar sem rumo, deve apresentar projetos claros. Só assim a população terá como escolher o melhor caminho para o País nos próximos quatro anos.
- DENISE ROTHENBURG é jornalista em Brasília

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