Este final de ano, assim como em muitos outros já vividos, basta ligar a televisão para que se veja campanhas e mais campanhas visando ajudar os menos favorecidos a passarem um Natal digno de ser humano, com comida à mesa e brinquedos para as crianças. Mas, e os demais 364 dias do ano? Ao invés de simplesmente desejar ''Feliz natal'' a nossos irmãos desafortunados, talvez fosse mais correto de nossa parte dizer ''Feliz natal e tristes demais dias do ano seu pobre infeliz''.
As pessoas que sobrevivem ou tentam sobreviver na mais completa miserabilidade necessitam sim de ajuda da sociedade, mas não por intermédio de esmolas. Mas por condições plenas de alimentação, vestuário, educação e lazer, ou seja, necessitam ser ''pessoas'', como se encontra no dicionário: ''o ser humano considerado singularmente, como sujeito de direitos''. Sem dúvida é importante ajudarmos quem necessita, mas de que adianta tapar o sol com a peneira?
Milhões e milhões de miseráveis famintos tentando sobreviver com migalhas e esmolas, dependendo da boa vontade alheia para dar de comer a seus filhos, gerando a revolta e a violência de todos (absolutamente todos) os dias do ano. Absurdamente, no entanto, aqueles que deveriam buscar soluções para a dramática situação em que se encontram os 50 milhões de miseráveis de país, na mais pura demonstração de oposição ao bom senso e à razão e na mais genuína cara-de-pau e canalhice nos deixa a todos estupefatos (ou nem tanto, já que não se pode mesmo esperar nada de bom em se tratando de corvos) ao se utilizarem de nosso dinheiro de impostos para auto-favorecimento, elevando seus próprios vencimentos em mais de 50%.
Dinheiro este que, somando-se o efeito cascata para tudo quanto é político espalhado pelo país, poderia ser útil para ajudar de forma concreta aos que dele realmente necessitam. Aqueles que dependem da boa ação de quem sequer conhece para poder simplesmente comer. Será que um dia vamos aprender a não mais confiar nesta multidão desprezível à qual pertence a maioria esmagadora de nossos ''representantes'' no Congresso?
Se tudo permanecer como está, estaremos caminhando rapidamente para duas situações sociais distintas: na primeira se encontrarão os felizes e respeitados cidadãos que isolam-se em seus condomínios fechados. Em suas luxuosas residências e com seus rendimentos estratosféricos ostentarão desde jóias de milhares de reais a carros de centenas de milhares de reais.
Na segunda situação teremos os desafortunados miseráveis, esquecidos pela sorte e sobrevivendo das migalhas dos primeiros. Até quando nós brasileiros ficaremos impassíveis diante do descomedimento e injustiças sociais que reinam em nosso país? Feliz Natal, lamentável e triste realidade.
JOSÉ LUCIANO TAVARES DA SILVA é professor universitário em Londrina

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