Democratizar a democracia - Fernando José Dias da Silva
Democratizar a democracia
Fernando José Dias da Silva
Que o MST não é um grupo de rapazes cordatos, dispostos a dialogar e muito menos amável todo mundo sabe. O que nós ficamos sabendo agora é que os sem-terra ameaçam a democracia. Essa é a novidade: eles ameaçam o poder constituído; é gente feroz e nociva ao bem-estar comum. Por isso censura neles, Lei de Segurança Nacional neles, prisão, com direito a uma raspagem no cabelo, em cima deles.
Que o MST é radical é, que tem um discurso revolucionário tem. Mas se invadir meia-dúzia de prédios públicos, esculhambar festas oficiais, dar declarações explosivas, é ameaçar a democracia a coisa é grave. O governo está por um fio e ninguém sabia.
Tudo bobagem. Xingar a mãe do presidente da República é de uma grossura sem tamanho, é uma falta de educação inenarrável. Mas não ameaça a democracia. Pode mostrar, quando muito, que o governo não se dá ao respeito. É fraco porque não demonstra autoridade. Treme de medo quando alguém não acata seus desígnios porque descobre que seu discurso tornou-se frágil, não comove os corações.
Tecnicamente, o que está fazendo MST é um erro de estratégia de dimensões formidáveis. Coisa de amador cutucar a onça com vara curta. Não é por esse caminho que se avança, principalmente pelo risco que envolve a manobra.
Desdenhar o jogo político institucional é no mínimo burrice nessa altura porque sem ele há muito mais a perder do que ganhar. A não ser que os bruxos do MST imaginem que há possibilidade de alguma saída inflexível digamos assim, pela esquerda. Aí é desvario mesmo.
As coisas, se há desestabilização, acontecem pelo outro lado. E, talvez, com o apoio de um setor expressivo da população. O Grupo Latinobarômetro, do Chile, pesquisou o apoio à democracia em 17 países latino-americanos entre janeiro e março. Não deu outra, o índice de apoio mais baixo foi no Brasil com 34%. De acordo com a pesquisa um entre quatro brasileiros acredita que há ocasiões em que um governo autoritário seria preferível.
Segundo o jornalista Michael Reid da revista The Economist, isso, em parte, tem a ver com o fato de o governo militar no Brasil ter sido menos repressivo e mais bem-sucedido economicamente, que os governos militares em outros países da região. E pode também ser o reflexo dos padrões educacionais relativamente baixos do Brasil, afirma o jornalista.
Não é à toa que quando acontece alguma coisa fora de script aparecem aqueles defensores da paz dos cemitérios, que vociferam contra a baderna e a falta de pulso do governo, que clamam para que sejam coibidas aqueles manifestações contrárias à índole cristã do nosso povo.
Se a coisa avança todo mundo sabe o final. E é um final que seguramente não beneficia movimento popular algum. Por isso ainda há muito que caminhar no sentido de democratizar a democracia. Torná-la a mais barulhenta possível para tirar o governo da insensibilidade cavalar a que está acometido com relação aos problemas sociais, aos gemidos do povão. Sempre jogando o jogo e de preferência sem botar a mãe no meio.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo





