Democracias falsificadas
As estatísticas brasileiras de final de milênio, como quase todas as divulgadas nos últimos anos, mostram verdades positivas, mas também ocultam realidades negativas, com a colaboração cúmplice de boa parte da mídia de massa. Aos leitores que vêem exagero nessa afirmação aconselha-se uma visita a qualquer família do grupo dos 54,1% de brasileiros condenados à faixa de pobreza no País.
Aliás, deu-se, com tal cifra, apesar do otimismo oficial, um lapso revelador: a pobreza no Brasil aumentou! Tínhamos, com aquela porcentagem, 89,8 milhões de pobres, pois se pensava que éramos 166 milhões de pessoas. Mas, segundo o IBGE, são 169,54 milhões os habitantes do País. Assim, o total de pobres, em que pesem as comemorações do governo federal e da mídia, chega a 91,7 milhões de pessoas de carne e osso.
Ocultar a verdade, para fingir que tudo está bem e não há tanta miséria, é uma forma de mentir. Fazer previsões fantasiosas é outra forma. As nossas, a começar pelos saldos comerciais, falham desde 1996.
Para saber mais sobre mentiras, o brasileiro pode ler, em português, o livro de J. A. Barnes, Um monte de mentiras! A sociologia da mentira. Nele se diz que os governos mentem sistematicamente ao povo desde os anos 60. O autor cita conselho de outro estudioso de patranhas, a políticos e governos: Não creiam nas próprias mentiras. Elas terão consequências perniciosas mais tarde.
Barnes fala das mentiras na política, em tempo de paz, e no plano militar, durante as guerras, mas também nas guerras e pazes do amor e das relações sociais. Entre os grandes mentirosos políticos, ele destaca Adolf Hitler e Ronald Reagan.
Coincidentemente, a revista Le Nouvel Observateur (6/13 de dezembro último) publicou um dossiê sobre a eleição presidencial sérvia, em setembro último, na qual Kostunica, da oposição, derrotou o ditador Milosevic. Uniram-se para democratizar a Sérvia, a USAid (agência americana); os partidos ingleses, por intermédio da misteriosa Fundação Westminster; os governos da França, Alemanha, dos países nórdicos e George Soros, ex-patrão de Armínio Fraga. No último Natal, em eleições para o Congresso, a oposição voltou a vencer ali, com os mesmos favores desses aliados.
Espalharam-se dezenas de milhões de dólares, na mídia e em organizações sérvias. Tudo em segredo, para o povo não descobrir a origem externa de tais ajudas.
Dir-se-á que Milosevic era ditador e merecia. Era. E o seu sucessor e os pleitos sérvios? Mentiras da democracia, sob a globalização neoliberal do fim de milênio!
Em nossas eleições de 1962, o dólar elegeu governadores de Estados importantes e 120 congressistas contrários ao nacionalismo de João Goulart. Se isso não se deu nos últimos pleitos presidenciais cujos gastos, aliás, não fecham será que não pode suceder em 2002, para eleger quem apóie a economia da globalização neoliberal, tão generosa com os interesses internacionais? Por que não?
Depois da Sérvia e da Flórida, adeus seriedade. Tudo é possível. Até a mentira de melhorar a Petrobras, chamando-a de PetroBrax, mas de fato para esquecermos que ela é nossa.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília





