Quando pediu no Senado a presença de observadores estrangeiros para as eleições de outubro, o senador e ex-presidente da República José Sarney, pai de Roseana, candidata à sucessão de FHC, não cometeu leviandade alguma, como disse o presidenciável José Serra, amigo do chefe do governo.
Sarney sabia o que falava e quais seriam as reações a seu pronunciamento. Ele não insistiu no tema para evitar fraudes na apuração das urnas eletrônicas, aliás incontroláveis pelos interessados, além de certos limites. Seu objetivo foi impedir algo mais sutil, fruto das distorções do princípio de isenção a que estão obrigados os governos democráticos, de alto a baixo na cadeia do poder. O ex-presidente referia-se a intervenções abusivas do Executivo e do poder político e econômico de organizações estatais ou privadas na sucessão presidencial.
Quase ao mesmo tempo, outro ex-presidente da República – fato raro no Congresso –, o governador mineiro Itamar Franco, em sala próxima ao plenário do Senado, em reunião reservada com peemedebistas favoráveis à sua candidatura presidencial pelo PMDB, desistia dessa pretensão. Motivo: as pressões que ele e seu governo enfrentavam, ante sua disposição de concorrer à sucessão de FHC, levaram-no ao limite da exaustão. Crítico severo de desvios da política econômica e social do governo, as manobras do situacionismo o atingiam e prejudicavam Minas.
Ao renunciar à candidatura à presidência, ele revelou que ficaria no governo do Estado e se candidataria à reeleição, no que, presumivelmente, seria menos atingido pelos adversários. Nesse posto, depreenderam todos, ele faria de Minas trincheira aos abusos políticos antidemocráticos do governo federal.
Os peemedebistas aceitaram as razões do governador e, com seu apoio, continuarão lutando pelo candidato presidencial próprio, no PMDB, ao mesmo tempo em que denunciarão aqueles a quem chamam de traidores do partido, atrelados que estão, por injunções e conveniências do governo, e sem qualquer consulta às bases, à candidatura Serra.
O tripé sobre o qual, para o deputado Delfim Neto, está o governo FHC (o PIB dos grupos econômicos ricos; quase toda a mídia eletrônica; e as empresas de pesquisas eleitorais) paira acima do povo, faz suas regras e já decidiu. Justiça para quê? O tripé julga como quer. O maior partido político fica sem Itamar; as eleitoras, sem Roseana. É a democracia neoliberal em ação. Sem peias nem trincheiras.
RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília

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