Democracia meia-sola
O presidente Fernando Henrique Cardoso não se apertou, como político nem como sociólogo, ao lhe contarem, na Holanda, que o número de brasileiros pobres passara, em 1999, de 33,4% para 34,9% da população, o que corresponde a 54,1 milhões de pessoas no País. FHC achou pequena a diminuição de renda dos brasileiros, dado o tamanho da crise de 1999. Crise essa diga-se de passagem causada pela insistência do presidente e de sua equipe econômica em manterem superestimada, por motivos políticos (a reeleição presidencial de 1998) a cotação do real em relação ao dólar.
Uma pequena diminuição de renda! Em um ano apenas, graças aos desacertos da política econômica do governo, mais três milhões de brasileiros desceram, inapelavelmente, alguns degraus em suas vidas simples e ficaram mais pobres.
FHC tenta confortar esse exército de 54,1 milhões de pessoas que não têm como sobreviver com decência. Para o presidente, poderia ter sido pior. Talvez pudesse, mas, nesse jogo de soma zero, se os pobres perdem, os ganhadores sempre são os ricos, menos numerosos, que, no caso, ficam bem mais ricos.
O presidente esqueceu o hábito de medir as palavras, para não dizer impropriedades, como as que pronunciou sobre os resultados do primeiro turno das recentes eleições municipais do País. Na opinião de FHC, os números eleitorais foram muito equilibrados para que se possa falar em vencidos e vencedores. O que o presidente desconsiderou em sua fenomenologia mais política do que sociológica e menos ética do que política , ao analisar o pleito, foi o desequilíbrio crescente da massa de eleitores atrás dos 54,1 milhões de brasileiros pobres. Desgraçadamente, eles votaram como párias sociais, não como cidadãos livres, portanto sem as condições mínimas para escolher prefeitos e vereadores. Todos, como convêm às elites, presas fáceis da corrupção pelo poder econômico e político.
Onde se viu? O universo da miséria aumentado, mas impotente ajudando a fazer a democracia com que os ricos e poderosos sonham, na qual uns continuem vítimas das injustiças do mundo e outros sigam preservando sua hegemonia e acumulando riquezas, sem que as autoridades se compenetrem do dever de redistribuí-las.
Nessa democracia, da globalização neoliberal de FHC, os que nada têm provavelmente nunca terão. É a democracia meia-sola. Conquista que muitos atribuem à mudança de conduta da oposição, agora bem-comportada, à qual se pede o milagre da cura dos males inerentes ao capitalismo. O inadiável, porém, é uma democracia que volte a tratar soberanamente de nossos interesses vitais e reintegre, o mais rápido possível, os 54,1 milhões de brasileiros marginalizados. A violência da pequena pobreza, que FHC não vê, já estremece o País e pode ser o estopim da bomba capaz de explodi-lo, mais cedo ou mais tarde, em muitos pedaços.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília





