Democracia em risco
André StumpfHá alguns anos, participei de seminário internacional no Ciespal, organismo internacional com sede em Quito, no Equador. Sua especialidade é trabalhar com informação, jornais e jornalistas. Participei de interessante troca de idéias entre profissionais de quase todos os países latino-americanos. Na ocasião, fui apresentado a uma realidade inquietante: a força política dos traficantes. A conclusão unânime do encontro foi a de que as democracias sul-americanas estavam ameaçadas pelo poderosos cartéis que controlam as drogas no continente.
Impressionou bastante o depoimento de um jornalista colombiano sobre a banalização do crime político em seu país. Prefeitos, ministros, governadores são assassinados regularmente. E jornalistas também. Na Bolívia, houve um caso célebre. Determinado traficante publicou anúncio de página inteira em jornal de Cochabamba pedindo às autoridades que tirassem seu filho da cadeia nos Estados Unidos. Ele, em troca, pagaria, à vista, a dívida externa do país.
Notícias originárias de Bogotá informam que cerca de 40% do território da Colômbia está sob controle dos guerrilheiros, que operam em ambiente de íntima colaboração com os traficantes. Um grupo ajuda o outro. Ou um e outro são a mesma coisa. Recentemente, os generais norte-americanos perceberam o perigo de uma eventual desestabilização do governo daquele país. Pior: entenderam o risco de o poder passar para mãos de grupos ligados ao narcotráfico.
Jornais colombianos afirmam que tropas norte-americanas estariam se preparando para a guerra naquele país. Falta um bom argumento. Ou uma porta de entrada para internacionalizar o conflito. O governo da Argentina, que se coloca à disposição dos Estados Unidos para também se envolver no problema, solicitou ao governo de Washington sua adesão à Organização do Tratado do Atlântico Norte. A aparente maluquice platina poderia abrir a porta às tropas da Otan para desembarcarem na América do Sul a pedido de Buenos Aires - não fosse a recusa da Otan em aceitar a oferta do presidente Menem.
A situação é preocupante. Os militares brasileiros estão na posição de se informar, rapidamente, sobre a extensão e possível escalada do conflito na Amazônia colombiana. Jamais ocorreu a presença de tropas norte-americanas na América do Sul. E nunca junto à fronteira do Brasil. A Amazônia é uma só. As divisas foram fixadas pela arte de políticos e diplomatas. Podem ser modificadas a qualquer momento. Os europeus conhecem o fenômeno.
A perspectiva de intervenção militar estrangeira constitui uma novidade no cenário político sul-americano. Assessores militares norte-americanos já estão auxiliando o Exército colombiano. A escalada na guerra do Vietnã começou assim. Assessores chegaram devagar. Depois vieram os marines. Não é bom fingir que nada está acontecendo no Noroeste brasileiro. As democracias estão sob severo questionamento. É alto risco.
- ANDRÉ STUMPF é jornalista em Brasília

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