Castelo, mansão, horas extras... Os sucessivos escândalos do legislativo têm deixado a população brasileira totalmente descrente na política. Pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha mostra que a reprovação do Legislativo atingiu 37% após os escândalos mais recentes. O maior índice registrado pelo Instituto - 56% - foi em novembro de 1993, quando ocorreu o escândalo dos anões do Orçamento.
  O grande risco desses fatos todos é o descrédito na democracia. O cientista político Elve Censi conversou com a FOLHA sobre o assunto e afirma: ‘‘Quando a sociedade se afasta das casas legislativas, eles (políticos) vão votar de acordo com a perspectiva da carreira política deles. A política funciona muito nessa relação. Quanto maior a cobrança, a indignação com certas medidas impopulares, mais o parlamento reage de acordo com essas expectativas.’’
  Esses escândalos recentes e corriqueiros ainda afetam as instituições ou as pessoas estão tão acostumadas que já esperam que isso aconteça?
  A primeira percepção é de que a política pode cada vez menos na relação com a economia. O que tem consequências quando as pessoas, por exemplo, percebem que ao escolher um projeto político, este não tem a capacidade de mudar significativamente a vida delas. Esse é um fator que leva algumas vezes a uma desesperança por parte do eleitorado. A segunda dimensão, mais próxima de nós, diz respeito ao processo permanente de crise da nossa política. Os escândalos antigamente tinham uma capacidade de mobilização e impacto sobre a sociedade muito maior do que hoje, porque se tornaram de certa forma, corriqueiros. Isso é ruim porque as pessoas passam a ver como natural e isso pode levar o eleitor a achar que essas práticas políticas são legítimas quando, na verdade, não são.
  Qual o perigo de as pessoas estarem tão acostumadas?
  Isso leva à descrença nas instituições e na própria democracia. As pessoas acham que não vale mais a pena fazerem escolhas políticas, porque em tese os políticos seriam todos iguais e isso não faria diferença na vida delas.
  Então a democracia corre riscos?
  Quando a política se torna desacreditada, a própria democracia está ameaçada. A democracia só se sustenta a partir da vigência plena de suas intituições e da participação popular. Quando você tem escândalos sucessivos, uma descrença dos vários segmentos da sociedade, você vai minando um elemento básico da democracia que é a participação dos próprios cidadãos, e vai deixando o campo das decisões da política para os ‘‘profissionais’’. E isso corta um vínculo necessário e imprescindível da democracia, que é esse vínculo entre representantes e representados.
  Quando se diz que a sociedade deveria exigir mais, poderíamos dizer que grande parte da culpa é nossa?
  Eu diria que é uma via de mão dupla, porque eles foram eleitos pelo voto popular. A sociedade poderia escolher outros e não aqueles. Só que aí temos que voltar atrás. Sim, a sociedade poderia escolher outros, mas como funcionam nossos partidos políticos? Qual possibilidade tem um outro indivíduo fora dessa dinâmica interna da política de ingressar nesse mundo? Temos questões como o custo das campanhas, a forma como funciona a política. Hoje os próprios políticos dizem que sem fazer uma reforma não existe a possibilidade, é muito difícil mudar a política. Não é impossível, mas é muito cara. Isso já potencializa os vícios existentes.
  Muitas vezes o eleitor sabe que aquele candidato não é o melhor mas por ser seu conhecido, seu vizinho, ele prefere votar porque se precisar ele sabe a quem recorrer...
  É, aí há uma mudança de cultura também, não só por parte da classe política, mas também por parte do eleitorado. Hoje temos mecanismos mais sofisticados de compra de votos. Existe ainda o clássico, mas há o mecanismo ‘‘legal’’ para se comprar voto que é o de pirâmide. Há um abuso do poder econômico, onde se despeja muito dinheiro. O candidato dá R$ 50, chama todo mundo para trabalhar na campanha e acabam não trabalhando. É importante a justiça eleitoral passar a exercer um controle mais efetivo sobre isso. Existe sim por parte do eleitor essa cultura de aproveitar a eleição para receber algum benefício. Só que esse benefício de agora traz consequências depois porque o voto comprado é um voto, da ótica do político, sem direito de reivindicar depois representatividade . Ele diz, ‘‘já comprei teu voto, não venha exigir que eu te represente dignamente, porque já fizemos um negócio escuso’’.
  Existe algo positivo em toda essa onda de escândalos?
  Acho que é preciso amadurecer, perceber o quanto a política pode. Depois, despertar a consciência do eleitor de que ele precisa cobrar, controlar e participar ativamente para evitar esse tipo de escândalos. Outro aspecto é, nas eleições, escolher criteriosamente. Nesse caso há um processo de ensaio e erro. Se o eleitor fez uma escolha equivocada em uma eleição, ele deve perceber que na próxima esse candidato e nenhum outro que seja parecido ou tenha esse perfil político merece mais o voto. Se ele compra votos, se ele promete coisas em excesso, se ao invés de se propor a representar a população ele cria mecanismos viciados de barganha, de tentativa de aliciamento, querendo dar algum benefício, fuja, porque provavelmente como representante ele vai ser corrupto.

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