Democracia e preconceitos
PUBLICAÇÃO
domingo, 22 de setembro de 2002
Rubem Azevedo Lima 
Em breve, sob as exalações do lixo da marquetagem cada vez menos democrática, o país fará o que há de econômica e socialmente antidemocrático na democracia: votar numa eleição em dois turnos, achando estar cumprindo o ideal de democracia, embora o segundo turno potencialize o peso do dinheiro e da política.
Nada contraria mais a lógica democrática a prevalência da vontade majoritária dos eleitores numa eleição do que essa votação em duas etapas, na qual o vitorioso na primeira pode ser derrotado, maliciosamente, na segunda.
Tal sistema confere aos eleitores de candidatos batidos na primeira fase portanto excluídos da segunda e aos que não foram votar, sem motivo justo, ou foram, mas votaram em branco ou nulo, o direito de decidirem a nova eleição. Isso ocorre menos em nome do ideal supostamente democrático de maioria absoluta, em tais circunstâncias, do que para barrar a ascensão de candidaturas rejeitadas pela ordem política, econômica e social estabelecida. Algumas vezes, por sorte da democracia, esse eleitorado flutuante mantém a definição do turno inicial.
Em 1998, o presidente FHC, eleito em primeiro turno, só teve maioria relativa, pois perdeu para os votos brancos e nulos. Nas eleições de governadores e prefeitos aconteceu o mesmo e muitos, majoritários na primeira fase, perderam na segunda.
Seja dita a verdade: a eleição em dois turnos, quando candidato algum obtém maioria absoluta no primeiro, surgiu contra o espírito da democracia. Invocaram-na contra Vargas e Juscelino, mas não contra Jânio. Esse, apoiado pelo povo, sim, mas, bafejado pela plutocracia, foi presidente sem maioria absoluta. Tal regra, doutrinariamente discutível, no fundo é preconceituosa e viola o princípio das decisões por maioria de votos pasmem, leitores , em nome da democracia.
É a volta dos preconceitos odientos. Desesperados, os marqueteiros de Serra condenam o líder na corrida presidencial por não ter ele, ao contrário do candidato para o qual trabalham, formação acadêmica nem diploma. Que absurdo!
Normal seria ouvirmos, nos programas eleitorais, os protestos dos oprimidos, desvalidos e discriminados em razão de quaisquer preconceitos , tentando arejar e mudar a mente dos que oprimem, desvalem e discriminam.
Triste e dissonante é a voz de beneficiários das injustiças econômicas e sociais acusar um trabalhador respeitado intelectual e moralmente, embora vítima da omissão das elites a que aqueles pertencem , por merecer o apoio do eleitorado sem medo nem preconceito.
RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília


