Democracia e miséria - Editorial
Democracia e miséria
Carta publicada na edição de sábado deste jornal, enviada por um leitor de Cornélio Procópio, com uma análise negativa sobre a trágica situação da população e uma crítica pesada aos políticos, representa um alerta, em especial pela conclusão. O leitor pergunta se vale a pena viver em um tipo de democracia que só serve a aproveitadores, vagabundos e políticos corruptos e conclui com uma assustadora frase: Que saudade do militarismo. Esta é, infelizmente, uma reação comum a muitos diante das dificuldades que atingem a maioria, entre outras coisas porque na luta contra a ditadura se passa muito a idéia de que a democracia, por si, resolve todos os problemas de um povo. Até por isto, nos primeiros e difíceis tempos da redemocratização, quando o então presidente José Sarney naufragava, deixando o País à deriva, proliferaram frases como eu era feliz e não sabia, em alusão à desesperança que atingiu o país e à aparente solidez econômica do tempo do autoritarismo.
Este tipo de sentimento não é exclusivo dos brasileiros. Segundo um estudo divulgado pelas Nações Unidas em Genebra, na semana passada, cerca de 100 milhões de pessoas vivem em extrema pobreza nos países que formavam a ex-União Soviética, como consequência das apressadas políticas de transição e da economia de mercado. O estudo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (UNDP) sobre as ex-repúblicas soviéticas e o Leste Europeu revela também que toda a região foi afetada por um aumento vertiginoso da pobreza, do desemprego e da criminalidade, paralelamente a uma diminuição da qualidade dos serviços sociais. O documento informa que desde 1990, cerca de 10 milhões de pessoas morreram por causa do alcoolismo, a dependência de droga e pelo suicídio. Também aborda o fenômeno da insegurança psicológica sofrida por milhões de pessoas por causa da transição política e econômica. A criminalidade vinculada às drogas quadruplicou na Rússia entre 1991 e 1996, enquanto que 50% dos funcionários búlgaros pesquisados pelo UNDP se declararam dispostos a aceitar subornos. O mercado ilegal de bens, drogas e pessoas se converteu na principal fonte de renda para os excluídos da economia formal do Leste Europeu.
Quando democracia equivale à miséria certamente ela se transformará em desilusão, com muitas outras sociedades voláteis a caminho, afirma o documento da ONU, quase que parafraseando a frase do leitor acima citado e refletindo, de modo quase geral, uma idéia comum, mas equivocada. A democracia é, sem dúvida, o melhor e mais concreto caminho para o ser humano na sua luta pela vida. Todavia, não representa uma garantia de vida. O que a democracia oferece é a liberdade para o cidadão. A questão chega a ser parecida com a da abolição da escravatura. Luta-se contra a escravidão, mas no momento em que ela acaba as pessoas que ganham a liberdade descobrem que também assumem o compromisso com seu próprio destino. Os ex-escravos não têm mais, como antes, quem os alimente, vista e abrigue. Não são mais obrigados a trabalhar para os outros, por nada, mas têm que assumir seu caminho.
Aqui, como na Europa Oriental ou em todo mundo, democracia é liberdade. É a condição para que o ser humano seja dono de sua vida. Isto implica, também, em conscientização de cidadania, o que vem crescendo no Brasil, numa percepção do papel de cada um na escolha dos que governam em seu nome. Só quando o cidadão assume este papel é que pode de fato dizer que vive na democracia. E só então é que o regime se dimensiona em toda sua potencialidade, representando a grande valorização da dignidade humana, fundamental na própria História da humanidade.





