Democracia é isso? - Gerson Araújo
Democracia é isso?
Gerson Araújo
A divulgação simultânea de tantos casos de corrupção, desvio de verbas públicas e outros crimes por este Brasil afora, tem permitido que alguns coloquem em dúvida o valor da democracia, já que, dizem eles, não se ouvia falar destas barbaridades no tempo da ditadura.
Outros chegam até a desejar a volta daqueles tempos sob alegação de que havia mais paz e tranquilidade. Os ousados e, possivelmente os menos avisados, chegam até a propor movimento no sentido de devolver o governo aos militares. Sentem-se como os israelitas no deserto que, após serem livres da escravidão do Egito, e sofrendo por estarem pagando o preço da liberdade, sonhavam com as panelas de carne de que dispunham todos os dias.
Sim, a liberdade tem preço, muitas vezes alto. O preço da seriedade, da firmeza de propósitos, do uso da dignidade, do poder da escolha certa, o que faz com que muitos prefiram a tranquilidade da submissão.
Portanto, devemos dar graças a Deus por tudo o que está acontecendo, pois é exatamente a democracia a causa dos fatos atuais: do vir à tona os problemas que estavam submersos ou, para usar uma linguagem mais forte, de vir a furo os tumores cuja infecção está matando a nossa sociedade, permitindo alguma forma de tratamento.
Contrariamente à definição da palavra reta, que é o caminho mais curto entre dois pontos, a democracia é, possivelmente, o caminho mais longo entre a proposição e o alcance dos objetivos, mas é o caminho mais seguro. Pode demorar, às vezes, até décadas, mais quando ela é verdadeiramente cultivada, os resultados são extremamente positivos. É claro que neste meio tempo surgem as dúvidas, o desânimo, a descrença nas pessoas e nas instruções, a vontade de parar, de jogar tudo para cima e, até mesmo, de aderir às sugestões do ganho fácil, de aderir ao que todo mundo faz, porque não eu?. Mas com paciência, trabalho e confiança vê-se que as coisas caminham, que os resultados surgem e que é possível ter esperança.
Mas muitas pessoas vivem de resultados imediatos, não trabalham com propósitos, daí, em função de seus planos de curto prazo, entendem que precisam demolir o pouco que se construiu. Apelam para idéias esdrúxulas (bem a gosto dos ditadores e corruptos) tais como a do voto nulo ou branco, castigando, com isto, os homens sérios, honesto e competentes (que não são muitos) que dependem do voto consciente para se eleger. Os malandros (que normalmente se utilizam de muito dinheiro para tocar uma campanha), não são afetados e até colaboram para que esta aberração frutifique.
Não se pode condenar ninguém sem julgamento e sem que se dê toda a possibilidade de defesa, pois isto é prerrogativa básica da democracia, mas o que se espera é a continuação de todas as apurações e que os culpados possam ser exemplarmente responsabilizados. E estes fatos não devem ser utilizados como razão para se desacreditar da democracia, devem sim, servir de exemplo para que, como cidadãos, a conservemos e a aperfeiçoemos cada vez mais.
E ela é aperfeiçoada através do voto consciente. Mesmo que se erre uma vez, duas, ou até mais vezes, há sempre a chance de se acertar na próxima.
Queiram ou não, os eleitos, bons ou ruins, representam a sociedade que os elegeu e, para tristeza geral, existem segmentos ou grupos, que necessitam eleger pessoas com as quais eles podem contar mais tarde. Investem, e muito, em pessoas de moral flexível pois o único interesse é o de utilizá-los para concluir os seus planos. Não é de se estranhar, portanto, com o que está acontecendo no meio político brasileiro. Raros são os grupos econômicos que investem em políticos sérios, por isto, milhares de homens que poderiam mudar o perfil de nosso País não conseguem os votos necessários para tanto.
Conversando com um grande empresário da área rural, em uma das últimas eleições municipais, disse-me ele textualmente: Eu prefiro votar em um corrupto do que num idealista, pois o primeiro eu posso controlar com dinheiro e o segundo, sabe-se lá o que pode aprontar. Esquecia-se o referido empresário, no entanto, que alguém poderia pagar mais na disputa do controle do seu candidato. E é o que tem acontecido. Muitos até já se conscientizaram que perderam dinheiro nesta aposta e que vale a pena investir em homens sérios pois a sociedade ganha como um todo e eles também participam.
O que está acontecendo no Brasil e principalmente em Londrina não deve ser motivo de desânimo, mas em investimento cada vez mais nos valores democráticos. Tudo isto é aprendizado, é a democracia fazendo escola, fertilizando a esperança. Esperança de que aquilo que não é, poder vir a ser; um espera um sonho, de que algo se mova para frente, para o futuro, tornando realidade aquilo que precisar acontecer, aquilo que tem de passar a existir.
- GERSON ARAÚJO é pastor evangélico em Londrina





