Democracia desnuda
Os primeiros meses de 2002 ficarão conhecidos como os dias em que a democracia brasileira se desnudou. E não pareceu bonita. Durante todo o mês de janeiro, os marqueteiros foram mais importantes do que os candidatos, como se na nossa democracia a forma importasse mais do que o conteúdo. No lugar de oferecer líderes com propostas e sonhos para mudar o futuro do País, os partidos parecem se preparar para mostrar candidatos maquiados de acordo com os desejos mostrados pelas pesquisas de opinião pública no presente.
Em fevereiro, os marqueteiros cederam lugar aos juízes, que definiram as regras eleitorais conforme a interpretação que fazem e não conforme o rigor entranhado no imaginário da população. De repente, faltando poucos meses para as eleições, quando os candidatos já estavam formulando suas alianças e o eleitor fazendo suas opções, uma interpretação do tribunal, provavelmente correta e positiva no longo prazo, força uma total reorientação do processo eleitoral.
Março começa com uma parte quase final do strip-tease da democracia, quando uma candidata denuncia que o governo cometeu uma arbitrariedade brutal contra sua família, como forma de impedir o seu crescimento eleitoral; ao mesmo tempo, ela ajuda ainda mais a desnudar a democracia ao exigir privilégios inadmissíveis em uma democracia séria: a proteção do governo aliado para impedir que a polícia cumpra um mandado judicial. Uma das duas alternativas é a correta, mas qualquer delas, um governo arbitrário ou uma governadora privilegiada, envergonha a democracia brasileira.
Como se não bastasse, o Brasil entra no ano eleitoral rodeado de crises externas, com um País em guerra civil pela violência, uma economia quase estagnada, a sociedade dividida pela desigualdade, os indicadores sociais vergonhosos, uma frágil estabilidade monetária. E nenhum candidato explicita a razão fundamental pela qual deseja o poder. Querem o poder sem dizer o que pensam mudar e o que pensam manter no Brasil.
O País está ansiando por mudanças radicais que reorientem seu futuro e radicalmente se apeguem às conquistas que já foram alcançadas. Cada candidato precisa mostrar o Brasil que deixará quando terminar seu possível mandato. Mas isso não aparece no debate desses primeiros meses de 2002, com uma democracia imprensada entre a imaginação de marqueteiros e a vontade de juízes. Os primeiros nem sempre comprometidos com a verdade, os outros nem sempre comprometidos com a imparcialidade.
Há anos, a perplexidade e a indignação do eleitor vêm sendo alimentadas de uma sociedade cheia de riquezas e pobrezas, capaz de fabricar e exportar aviões e ao mesmo tempo gerar e exportar crianças para adoção no estrangeiro. Capaz de montar o mais sofisticado sistema de contagem de votos de todo o mundo, mas incapaz de definir com antecipação as regras eleitorais. Um povo perplexo diante da incapacidade da política democrática para transformar nossos recursos e conquistas do passado em um futuro sem pobreza, com independência, respeitando o meio ambiente, com crescimento e distribuição da renda; com esperança e mística para serem oferecidas sobretudo aos jovens.
Talvez a única riqueza atual da democracia brasileira seja a indignação do eleitor. Porque se a nudez servir para o deboche, para a venda do voto, para o votar em corruptos, a democracia, mais do que desnuda, estará morta. Terá a nudez dos necrotérios.
Felizmente, nada indica que a nudez seja cadavérica. A nossa democracia ainda está viva na esperança do povo em que seus agentes assumam suas responsabilidades: que os candidatos transformem-se em líderes; que os juízes sejam imparciais; que os marqueteiros apenas assessorem; e que fique esclarecido se temos um governo arbitrário que usa a Justiça, a polícia e o Ministério Público contra uma candidata, ou uma candidata acostumada a privilégios e inconformada porque o governo aliado lhe impôs a lei.
Os brasileiros têm o direito de pedir aos seus políticos, juízes e marqueteiros que comecem a vestir a democracia que nos deu tanto trabalho para fazer nascer. E nós temos o direito de transformar a indignação em força eleitoral.
CRISTÓVAM BUARQUE é professor da UnB/CDS e autor do livro Admirável mundo atual





