O Brasil inteiro se deslumbrou com o espetáculo de democracia explícita, que foi a recente marcha dos trabalhadores rurais sem-terra. Não era para menos. A primeira verdade exibida pela marcha em questão é que vivemos, realmente, numa democracia. Ufa! A exclusão, denunciada de forma veemente pelo documento final da reunião da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Itaici, realizada na mesma semana, foi negada na prática em todo o território nacional. A sociedade brasileira inteira travou contato com a realidade vivida pela parcela mais excluída da população - os camponeses que não dispõem de terra para produzir. Quem não os conheceu pessoalmente teve a oportunidade de vê-los e, sobretudo, ouvi-los no noticiário da televisão.
Com a caminhada, o MST firmou-se como principal movimento político de oposição ao governo Fernando Henrique Cardoso. Por mais prestígio pessoal de que goze o presidente, por mais apoio que seu governo tenha no Congresso Nacional e por mais efeitos benéficos que hajam sido produzidos pelo Plano Real, que extinguiu a inflação, a oposição é necessária. Não há uma democracia de verdade sem dissonância. A unanimidade, escreveu Nelson Rodrigues, é burra. Mais do que isso: a unanimidade torna burros os inteligentes, mesmo os que dispõem da clarividência intelectual do professor Fernando Henrique Cardoso. Por isso, a marcha, que desembarcou na Praça dos Três Poderes, na última quinta-feira, deve ser saudada como um marco histórico. Até por haver transportado de carona todos os grupos ressentidos, que foram soterrados pela avalanche de votos dados ao presidente na eleição de 1994.
Mesmo o grande impacto provocado pela marcha não exclui, também, a emissão de outros sinais positivos de que a sociedade brasileira começa a usufruir de uma democracia plena e absoluta. Um deles, emitindo pelo lado oposto, mas provocando no fim o mesmo efeito, foi a comoção nacional provocada pela divulgação das imagens da violência policial nas favelas Naval, em Diadema, e de Cidade de Deus, no Rio de Janeiro.
Até recentemente, quando se falava em tortura, limitava-se apenas aos porões da ditadura militar. Na verdade, a tortura sempre foi praticada nas delegacias de polícia em todos os tempos e sob todos os regimes, no Brasil. Mas a classe média só se indignava quando seus próprios filhos eram atingidos. A exposição nua e crua da brutalidade policial nas ruas das grandes cidades conseguiu modificar essa situação, levando a classe média a se revoltar também contra as agressões sofridas, pelos pretos e pelos pobres, que antes, nem sequer eram lamentadas.
O terceiro sinal de estarmos em marcha batida para a plena democracia, se é que ainda não chegamos ao destino, foi dado no episódio exemplar do extrateto. A tentativa frustrada de conceder a parlamentares e executivos do topo da burocracia o privilégio de ultrapassar o teto máximo de remuneração do servidor público comum provocou um dos raros momentos em que os Poderes Executivo e Legislativo tiveram de recuar, depois de submetidos à pressão contrária da população, até então tida como impotente. A onda de indignação contra o mostrengo foi de tal ordem que os pais da idéia a têm rejeitado o quanto podem, a ponto de brigarem pela prerrogativa de quem reclamou primeiro.
Só que ainda falta a reforma administrativa passar. Aí, sim, provaremos que nossa democracia é total, pois os interesses da maioria prevalecerão sobre os privilégios que a minoria chama de direitos adquiridos. De qualquer maneira - mesmo advertidos pelo economista Eduardo Giannetti da Fonseca de que os gastos excessivos do Estado brasileiro nos têm posto em última instância à mercê dos caprichos dos megainvestidores internacionais -, podemos comemorar tais conquistas. De qualquer maneira, a simples garantia de poder desafinar no coro dos contentes, se indignar contra indignidades e pressionar os ante pouco impressionáveis já merece vivas e hurras. Viva e hurra, pois!

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