Cidadania, democracia e educação são conceitos fundamentais e cruciais: fundamentais, porque remetem a valores importantes para a construção do humano; cruciais, porque se encontram ameaçados pela crise das democracias frente aos processos de globalização e internacionalização dos interesses de mercado. Além disto, são conceitos historicamente articulados que constituem os ingredientes básicos para a construção do futuro.
Para repensarmos essa articulação, faz-se mister reconstituir o contexto histórico no qual ela ocorreu e acrescentar um novo emergente a essa trama, que é o fenômeno da exclusão social. A política democrática sempre permitiu manter a tensão entre liberdade e democracia, igualdade e desigualdade. A perda do sentido político, com o surgimento de uma cidadania formal separada da cidadania material, eliminou a tensão, acarretando a perda do sentido da igualdade, uma das características da modernidade (ao lado da liberdade e da fraternidade/solidariedade).
Qual o papel dos educadores nessa realidade, presidida por uma lógica de reprodução implacável de uma ordem que se reproduz a si mesma e na qual os antagonismos se diluem? Na qual o pragmatismo gerado pelo conformismo social produz uma democracia moralista como alternativa ao cinismo? Qual a nossa tarefa – missão como educadores, quando se assiste à intrusão da lógica do mercado (e, sejamos objetivos, da lógica partidária) na educação, de modo que a visão da realidade muda segundo as razões do poder?
Antes de mais nada, é preciso reconhecer que a educação não passa mais somente pela escola. A sociedade é, hoje, uma sociedade de conhecimento e informação. O próprio trabalho passou a ser ‘‘imaterial’’, gerando uma espécie de ‘‘capitalismo cognitivo’’, com o desenvolvimento de uma ‘‘economia da informação’’ (‘‘new economy’’), de modo que a cidadania deixou de ser consequência da inserção produtiva para ser seu a priori.
O trabalho já não é mais, portanto, o elemento integrador por excelência, uma vez que o principal recurso produtivo é o conhecimento e a informação. A questão capital é, pois, quem irá se apropriar do conhecimento produzido? Sem dúvida, o capital tem um projeto próprio de concentração para essa apropriação. Esta é a perspectiva das reformas a partir das quais a escola deixa de ser pública e se transforma em empresa, com a adoção de um marco gerencial que reduz os alunos a insumos e os docentes em empregados, a educação passando a ser mercadoria (bem ou serviço). Mas, será isto que queremos?
É fundamental que os educadores, ao lado de uma dinâmica defensiva frente às políticas privatizantes do Estado, busquem a construção de projetos educativos alternativos. Mas para que isto ocorra, é preciso, antes de mais nada, que os educadores se reconstituam como sujeitos docentes, superando os limites e cerceamentos estabelecidos pelas novas relações de trabalho impostas a partir da redução dos espaços de cidadania operadas pelo modelo neoliberal.
O tipo de cidadania que podemos (e queremos) formar é uma questão que não compete apenas à escola, mas que não pode se desenvolver sem a escola. Hoje, a escola é, sem dúvida, o espaço onde a criança e o adolescente mais se vinculam e dialogam com o mundo adulto, já que a presença dos pais, em casa, torna-se cada vez mais reduzida. Logo, não é possível reduzir o problema da educação (e da escola pública) a uma simples questão de aumentar o orçamento para o setor.
Trata-se de ir mais além, de converter os desafios da educação numa agenda política com duas frentes: por um lado, desarmar o presente como reprodução infinita das injustiças sociais, numa sociedade que começa a se desinteressar da produção do humano, e, por outro lado, restituir ao espaço educativo o sentido da ‘‘possibilidade do Novo’’. Na verdade, recuperar a dinâmica da esperança é a única maneira de interromper a barbárie em curso.
Isso significa que romper com o conformismo social é ‘‘nadar contra a corrente’’. Mas, nadar contra a corrente requer que se saiba nadar, que se conheça a profundidade e as características do rio. E também que se aprenda a nadar com os que estão nadando. É fundamental reconhecer que há uma sociedade que se move e está viva, que resiste e quer viver. De modo que nós, os educadores, seremos capazes de romper as fronteiras entre educação e movimentos sociais, aliando rigor conceitual com sensibilidade política, na busca de uma qualidade educativa que seja qualidade social (e não mercadológica).
Só desta forma a educação deixará de ser uma educação para ‘‘os bons e os bobos’’ (os ‘‘bons’’, para a universidade; os ‘‘bobos’’, para o mercado de trabalho), tornando-se um espaço autenticamente público de formação da cidadania e de exercício de direitos com vistas à transformação da sociedade.
- TEOFILO BACHA FILHO é membro do Conselho Estadual de Educação do Paraná

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