Hugo Chávez, oficial da reserva de 44 anos, responsável por uma sangrenta tentativa de golpe de estado há quase sete anos, é o favorito nas eleições presidenciais que se realizam, hoje, na Venezuela. Perdoado após passar dois anos na cadeia, Chávez concorre com uma plataforma popular antigovernista que tem amplo apoio de venezuelanos frustrados com a queda no padrão de vida e a corrupção excessiva. Líder público carismático, com uma voz profunda, o ex-rebelde propõe um programa radical que inclui a criação de uma assembléia popular com o poder de dissolver o Congresso e a Suprema Corte e reescrever a constituição. Apesar de ter feito grande esforço nos últimos meses para suavizar sua imagem abrasiva, sua retórica populista e seus conhecimentos militares continuam assustando alguns, que temem que ele governe como um homem forte e reverta a atual política econômica do país.
O fato de um ex-militar, responsável por uma tentativa de golpe e que não esconde sua vocação totalitária, poder se tornar o presidente eleito da Venezuela merece mesmo a preocupação não só dos venezuelanos mas de todos aqueles que se preocupam com a evolução político-social do continente. A Venezuela, como praticamente todos os países da América Latina, tem uma história de golpes e de governos totalitários que só há pouco foi modificada. A democracia ainda é jovem. E, no entanto, já está ameaçada. O escritor mexicano Carlos Fuentes, em uma entrevista publicada recentemente, disse que ‘‘a democracia latino-americana deve começar a dar resultados, pois se se associa com a pobreza, a miséria e a angústia das pessoas, então estas vão começar a pedir mão forte, como na Venezuela’’.
‘‘Chávez - assinalou o escritor - é um militar golpista que está respondendo a um clamor popular, que se expressa na idéia de que se a democracia não nos dá o que queremos, vamos ver se novamente a mão forte nos dᒒ. O escritor vai além em seu alerta, ao afirmar que na América Latina ‘‘estamos dependendo do capital financeiro, desprezando nosso capital humano e não (estamos) lhe dando todas suas possibilidades. Vamos rumo a uma catástrofe política’’, advertiu o escritor. Considerado o escritor vivo mais influente do México, Fuentes disse que a consolidação da democracia na América Latina não basta ‘‘diante dos indícios que vemos de impaciência popular’’.
A advertência do escritor mexicano não se dirige apenas aos venezuelanos. É um recado a todo o continente, como se percebe quando assinala que a região assiste a um ‘‘processo sumamente perigoso, porque as pessoas perguntam para que quero a democracia se não me dá de comer, se não me educa, se não me dá saúde?’ E completa: ‘‘O retorno à mão forte, por causa do desespero das pessoas, é um grave perigo para países de fisionomia democrática muito deficiente como os latino-americanos’’.
Isto se aplica também ao Brasil. Algum tempo depois de ter saído de uma ditadura de 21 anos, em meio às dificuldades do governo José Sarney, surgiram adesivos que clamavam pelos tempos anteriores, com dizeres como ‘‘eu era feliz e não sabia’’. Não, o ser humano não pode ser feliz sob o tacão da ditadura. Mas a verdade é que a democracia tem que responder aos anseios legítimos do povo, que são poucos mas fundamentais. Pois o ser humano quer apenas condições razoáveis de vida, emprego, saúde, educação, moradia. Se a democracia não lhe pode dar isto, há uma falha imensa. E o perigo de se pretender voltar aos tempos dos ditadores é sempre muito grande. Fuentes lembra que ‘‘em toda a região se estabelecem governos democráticos, eleitos, com parlamentos, com partidos, mas ao mesmo tempo há uma queda radical dos níveis de vida, de emprego e de educação’’. Este é o grande desafio latino-americano.

mockup