Demissões à vista com as privatizações - Arlete Salvador
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sexta-feira, 10 de julho de 1998
Arlete Salvador 
O Banco de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) anunciou como grande novidade esta semana que vai exigir dos compradores das empresas do sistema Telebrás que ofereçam aos trabalhadores planos de demissão voluntária antes de fazerem demissões não tão voluntárias assim. Aliás, uma iniciativa pioneira dentro do processo de privatização brasileiro, lembraram os executivos do BNDES. Nenhuma das outras estatais foi vendida com esse compromisso explícito dos compradores.
A decisão do banco foi apresentada ao público como concessão aos trabalhadores. O BNDES, muito bonzinho antes das eleições, esforçou-se para garantir maiores benefícios aos trabalhadores na hora da privatização da Telebrás. Quem quiser ir embora vai sair da empresa com uma bolada a mais de dinheiro para começar vida nova.
A decisão do BNDES, deixada a demagogia eleitoreira de lado, é uma contribuição para esclarecer a opinião pública sobre as consequências da privatização no Brasil. Com a exigência dos compradores, o banco deixou bem claro para quem quiser ler que, vendida a Telebrás, haverá demissão de funcionários. Esse não é um dado novo. todas as empresas transferidas para controle privado foram enxugadas, antes ou depois da venda.
O novo no caso da Telebrás é que, pela primeira vez, um órgão do governo admite o desemprego como consequência da privatização. A venda de estatais, em geral, é mostrada com lupa cor-de-rosa, em que a demissão de funcionários não aparece. Ao contrário, costuma-se vender a idéia de que a privatização terá mais empregos. No caso da Telebrás, chegou-se a anunciar que seriam criados milhões de empregos no Brasil depois da privatização. O BNDES acaba de revelar que não é verdade, tanto que está se esforçando para dar um mínimo de direitos aos futuros desempregados do sistema.
Privatização seguida de demissão é um fenômeno que ocorreu no mundo todo, particularmente na Inglaterra de Margaret Thatcher. É sabido entre economistas e consultores que se debruçam sobre os números das empresas em processo de privatização que demissões em massa se seguirão à venda da Telebrás. Os novos donos irão busca de maior eficiência, produtividade e lucratividade.
Cabe perguntar, entretanto, se o programa de privatização brasileiro teria tanto apelo eleitoral se a população soubesse que, depois dele, muita gente iria para o olho da rua. Graças ao BNDES, o eleitor ficou um pouco mais bem informado esta semana.
- ARLETE SALVADOR é jornalista em Brasília


