O panorama político e institucional no Brasil tem hoje um grande candidato a herói: o governador do Ceará, Tasso Jereissati (PSDB), que acabou com o motim dos policiais civis e militares rebelados contra os baixos salários tomando três providências. Antevendo a possibilidade de uma catástrofe, que poderia descambar para o caos, mandou sua tropa de elite confrontar os rebelados a bala. Depois, declarou que os grevistas da PM eram ‘‘desertores’’, afastou 96 dos amotinados e mandou prender 23 deles, identificados pelas imagens da televisão e pelas fotografias de jornal como atiradores no tiroteio de terça-feira.
Qualquer brasileiro sensato sabe muito bem que o governador cearense nada fez de mais: apenas cumpriu a lei e usou de rigor para evitar que a ordem pública fosse afetada pela indignação, ainda que justa, de um segmento do funcionalismo público. Assim sendo, pelo menos em teoria, não havia por que erigir um altar em homenagem ao administrador pelo fato corriqueiro de cumprir seu dever, jurado no compromisso de posse. O que está fazendo de Tasso Jereissati uma figura diferente no panorama político e institucional do Brasil é que seus colegas administradores, no nível estadual ou federal, não estão usando do mesmo rigor para fazer cumprir a lei, custe o que custar, doa a quem doer, como gostam de dizer.
Ele se situa, por exemplo, no lado extremo oposto ao ocupado por seu colega de partido e possível concorrente à liderança máxima do PSDB, no final do reinado de oito anos do professor Fernando Henrique, o mineiro Eduardo Azeredo. Este, atordoado por um tiroteio com um cadáver à porta do próprio palácio e confundindo cautela mineira com brandura excessiva, cedeu aos subordinados rebelados, dando-lhes um aumento horizontal e sem propósito de 48%. Terminou acendendo o estopim da revolta que incendiou o Brasil, ao longo deste inverno. Sua decisão de mandar tudo o mais para o inferno - no fim, foi isso que ocorreu - ateou a fogueira que a firmeza do cearense começou a apagar.
Na verdade, em defesa do mineiro, pelo menos é possível argumentar que ele não está sozinho na equipe da moleza. O governo federal tem tolerado com exagerada paciência as invasões de propriedades rurais privadas e prédios públicos pelo MST. A tal ponto chegou esse excesso de tolerância que pequenos agricultores ocuparam o gabinete do ministro do Planejamento, Antônio Kandir, instalando um peru em sua cadeira, com um lenço amarrado no gogó. Qualquer grupo de manifestantes - transportadores clandestinos de passageiros que querem deixar de ser clandestinos ou donos de empresas de ônibus que não toleram a concorrência deles - sentem-se autorizados a paralisar o trânsito de São Paulo, a maior cidade do País, em nome dos direitos das minorias.
O prefeito de São Paulo, seus colegas e também os governadores preferem deixar a baderna correr solta, porque não querem ser acusados de autoritários nem de repressores. O secretário-adjunto de Segurança Pública de São Paulo chegou a declarar que, entre organizar e reprimir tais manifestações, é preferível a primeira opção. Bem, a paciência (além do bolso) da maioria que se dane!
Mas, se as autoridades confundem necessidade de ordem pública com repressão odienta, o povão, em sua pré-racionalidade política, contudo, sabe muito bem que, depois da baderna, costuma vir a tirania, como o saudoso Vicente Matheus sabia que, depois da tempestade, sempre vem a ambulância. Por isso, há no ar uma demanda de ordem. E a firmeza, ainda que rotineira, do governador Jereissati, a atendeu. Ele chegou a temer que o alfanje da impopularidade caísse sobre seu pescoço, mas foi tão cumprimentado e festejado que se descobriu a bola da vez. Está certo que 2.002, o ano em que o presidente Fernando Henrique poderá passar o bastão para o sucessor, se reeleito for, ainda está bem distante. Mas não custa nada sonhar, principalmente para quem é jovem, como o é o filho do senador Carlos Jereissati, do velho PTB de doutor Getúlio.

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