Picadinho, arroz e feijão para os mendigos. Hotel para os sem-teto. Lobby contra a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Assim começaram suas administrações os prefeitos das três maiores cidades do País. Pode-se até considerar legítimo o lobby contra a LRF proposto pelo prefeito de Belo Horizonte, Célio de Castro. Mas se espera que ele não queira mais liberdade de gastos públicos para que seus colegas de São Paulo, Marta Suplicy, e do Rio, César Maia, promovam novos festivais de demagogia.
Em tempos de busca de maior seriedade no trato do dinheiro público, o primeiro dia útil de governo de Marta e César Maia foi lamentável. Marta imagina que vai poder alimentar diariamente todos os mendigos de São Paulo? César Maia acha que vai poder hospedar em hotéis todos os sem-teto do Rio de Janeiro? Se não acham, qual a razão que os moveu a fazer apenas para alguns poucos escolhidos?
Foi um gesto simbólico, argumentarão os marqueteiros. Simbólico de quê? O que, concretamente, esses ‘‘gestos’’ têm a ver com os projetos sociais dos dois prefeitos para as suas problemáticas cidades?
O protesto de Célio de Castro e alguns outros prefeitos contra a LRF tem a ver, principalmente, com a preocupacão de que tais compromissos tolham a capacidade de investimento desses municípios em melhorias sociais. Argumentam que as cidades têm problemas muito mais graves que às vezes não cabem exatamente em um mero jogo contábil, de zerar receita de um lado e despesa de outro.
É possível que a Lei Fiscal tenha mesmo pontos discutíveis. Mas o que importa mesmo é o espírito que existe por trás dela, de austeridade na condução da coisa pública. Um espírito que parece ser o desejo hoje da opinião pública, cansada de ouvir escândalos de administradores que se endividam e deixam em pandarecos a economia de seus municípios. Ninguém quer mais endividamentos irresponsáveis.
O espírito de austeridade leva necessariamente a uma postura de seriedade do administrador. De um administrador austero não se esperam pirotecnias. Alimentar alguns mendigos se não se pode alimentar a todos ou hospedar alguns sem-teto em hotéis quando não se pode abrigar a todos não é exatamente a postura de seriedade que se espera. Tomara que, nos casos de Marta e César Maia, o ocorrido no primeiro dia de governo tenha sido apenas um deslize. Os eleitores depositam muitas esperanças nos governantes que elegeram.
- RUDOLFO LAGO é jornalista em Brasília

mockup