A pressa é uma das características da época em que vivemos. Fomos aligeirados pelos meios de comunicação e de transporte, e o computador completa a magia da intantaneidade colocando o mundo ao nosso alcance na pequena tela do monitor, inclusive ao facultar contatos imediatos de vários graus de intensidade via e-mail, esse correio eletrônico que disponibiliza relacionamentos antes inviáveis.
Estamos todos plugados à máquina, quase como naquele filme Matrix. Desliguem os computadores e a humanidade pára aturdida, sem rumo, sem ação, desnorteada entre satélites despencados, aviões perdidos, bancos sem funcionamento, arquivos destruídos, escuridão total. Apaguem agora os rápidos computadores e o mundo da velocidade será deletado.
Tudo é ligeiro. Nos jornais, os fatos se sucedem com a rapidez dos novos tempos. O escândalo de hoje está ultrapassado amanhã. A notícia da CPI de ontem já é assunto requentado. E o bandido, que aparece de repente numa página, na do dia seguinte desaparece, o que nos deixa sem saber se ele foi punido ou não no País da impunidade.
Na tela da TV, os fatos se tornam ainda mais velozes, escancarando de forma nítida, porquanto associada à imagem, à maldade e à violência, características tão humanas, estas sim, essências imutáveis desde que o homem é homem.
No torvelinho das urgências, o viver se banaliza porque os indivíduos não têm tempo para se deter no que é fundamental. Tudo gira rapidamente modificando comportamentos, eliminando valores, alterando instituições. Casamentos não duram, amores são fugazes, enterros se realizam poucas horas depois da morte. No Brasil, só continuam de uma exasperante lentidão a Justiça, a burocracia, o atendimento do INSS e as filas.
Em toda a parte do Planeta não duram ídolos populares nem modismos musicais. E a Bahia, que é pródiga em musicalidade, todo ano produz uma nova dança – que apenas não exclui a característica de ginástica aeróbica – a qual substitui o ‘‘chan’’ anterior executado sobre uma garrafa ou coisa que o valha, por outra forma de rebolar.
Banalizada e medíocre em termos de valores, a humanidade vai perdendo suas balizas morais. Vale-tudo, essa marca que antes só pertencia e pertence à área da política, e que foi magistralmente notada por Nicolau Maquiavel que a sintetizou na máxima: ‘‘Os fins justificam os meios’’. Esse vale-tudo já chegou a um ponto, que a maioria já não distingue claramente entre o bem e o mal, sendo que o próprio demônio, que se refugia ainda em algumas religiões, já perdeu prestígio por estar quase desacreditado.
Esta ligeireza que impregna o mundo moderno estende-se por todas as esferas da sociedade. E, assim, não se fazem mais ídolos políticos como antigamente, que permaneciam por mais tempo na memória e no coração do povo, e no seu presente eram grandes condutores de massas.
No passado, alguns dos nossos presidentes conseguiram ser a encarnação do Estado, pais da pátria, pais do povo, pais dos pobres. Em níveis diferentes, mas com impactos consideráveis de carisma sobre a massa, notabilizaram-se Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros.
Getúlio, por demais conhecido, quantas vezes analisado por estudiosos, o mais pai dos pobre, apesar de seus adversários o chamarem de mãe de ricos, é mito relembrado até os dias atuais. Juscelino, sem tantos detalhes na lembrança popular, é nome para sempre gravado na história do arrojo e do desenvolvimento brasileiro, nas serestas de Diamantina, no coração dos mineiros: Nonô pé de Valsa. Diferente dos dois em quilate de carisma, sobressaiu-se Jânio Quadros, campeão de eleições, ‘‘feiticeiro’’ de massas.
Eram três pais da pátria capazes de anestesiar a massa, de transformar a aceitação em obediência, de suscitar a ‘‘devoção’’ que pode conduzir ao paternalismo e à alienação, mas, sobretudo, grandes atores do espetáculo da política na personagem estrelíssima do ‘‘mercador de esperanças’’.
Atualmente as grandes personalidades são raras. Nas sociedades massificadas, onde as ideologias feneceram e foram substituídas por aspirações de cunho pragmático, a autoridade, da paterna à política, foi-se esvanecendo em termos de poder. Portanto, ressalve-se que não se pode falar apenas em maturidade do povo, agora mais auto-libertado das tutelas políticas. Se isso é ótimo e de fato existe, está longe de retratar um processo perfeito e completo, e o fenômeno da despersonalização do poder deve ser compreendido também à luz das transformações da atualidade, que na esteira da pressa aniquila lembranças e tradições.
Mas quem entendia de tempo rápido ou lento, e de poder, era Simón Bolívar, o político venezuelano de temperamento apaixonado que participou ativamente no século passado da luta pela independência na América Espanhola. Entre sua vasta produção escrita, está um texto intitulado ‘‘Meu delírio sobre Chimborazo’’, onde, num trecho, ele se encontrará com o tempo, que lhe diz: ‘‘Eu sou o pai dos séculos, sou o arcano da fama e do segredo, minha mãe foi a eternidade; os limites do meu império são marcados pelo infinito; não há sepulcro para mim porque sou mais poderoso do que a morte; vejo o passado, vejo o futuro e pelas minhas mãos passam o presente. Por que te envaideces, jovem ou velho, homem ou héroi? Achas que é algo teu universo? Que levantar-vos sobre um átomo da criação é elevar-vos? Pensais que os instantes que chamais de século podem servir de medida aos meus arcanos? Imaginais que vistes a Santa Verdade? Supondes loucamente que vossas ações têm algum preço aos meus olhos? Tudo é menos que um ponto no infinito que é meu irmão’’.
Eis ai uma magnífica lição para os vaidosos, os pretensiosos e os apressados.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora em Londrina
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