Pela primeira vez nesta campanha eleitoral, o presidente da República deixou de lado a postura otimista de candidato para dizer à população que medidas amargas terão que ser tomadas para enfrentar a crise econômica. S. Excia. poderia ter ido além do simples alerta, enviando desde logo ao Congresso as propostas de seu governo para sair da crise, oferecendo à sociedade a oportunidade de julgá-las com algum conhecimento de causa. O eleitor-contribuinte, que no final é quem vai pagar a conta, merece ter acesso às informações que o Banco Central transmitiu aos credores externos há pelo menos duas semanas.
A elevação das taxas de juros, responsável pela estagnação da economia brasileira e pela explosão da dívida interna, já não é suficiente para tranquilizar os ‘‘agentes’’ externos. Novas medidas recessivas estão em gestação, estabelecendo cortes profundos nos gastos públicos e aumento de impostos. Não podendo contar com o crescimento das exportações devido à rigidez da política cambial, a correção do desequilíbrio no comércio exterior se fará pela redução das importações e do nível global da atividade econômica.
Em recente entrevista ao jornalista Carlos Chagas, na TV Manchete, sugeri que se fizesse uma ampla discussão dessas medidas antes das eleições. O presidente tem credibilidade suficiente para convencer a sociedade da necessidade de ‘‘um forte ajuste fiscal’’ e poderia, portanto, seguir adiante explicitando as providências. Deveria encaminhá-las ao Congresso, e aí sim faria sentido apelar para ‘‘a consciência cívica’’ dos senadores e deputados.
O que não faz sentido é persistir na falta de transparência que caracterizou as intervenções do governo em 1995 (crise do México) e em 1997 (crise das economias asiáticas), quando a fuga de capitais foi contida mediante o expediente primário da elevação das taxas de juros. Um expediente que resultou em grandes lucros para os especuladores do mercado global e em sacrifícios inúteis para a economia brasileira, com a redução dramática do ritmo de crescimento e dos níveis de emprego, e o aumento das dívidas interna e externa. Esses problemas se ampliaram significativamente nos últimos dez meses, sem que o governo demonstrasse a menor disposição de informar corretamente a sociedade quanto à sua gravidade.
A mais recente crise nos mercados externos, deflagrada a partir da moratória russa, aumentou a percepção da sociedade em relação aos problemas internos. Tornou-se mais evidente a inconsistência de nossa política econômica. O Brasil foi novamente apanhado no contrapé, e o Banco Central, sem nenhuma imaginação, acionou pela terceira vez a alavanca dos juros, o que resultou no aumento da desconfiança externa quanto à nossa capacidade de pagamento e no aprofundamento da crise interna de produção e emprego.
É preciso dizer claramente aos brasileiros que o custo social para a superação da crise vai aumentar. Se o governo tiver êxito em obter ajuda externa (FM, Grupos dos 7 etc), o custo social poderá aumentar um pouco menos. Mas o maior problema será recuperar a credibilidade interna em relação à política econômica.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado pelo PPB-SP e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento

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