Delfim Netto
Delfim Netto
Acordo com
o FMI?
Em entrevista no programa de TV Passando a Limpo do jornalista Boris Casoy domingo passado, o professor Roberto Campo apresentou uma série de argumentos em favor de um entendimento do governo brasileiro com o FMI, o Banco Mundial e o governo norte-americano com o objetivo de garantir recursos para reverter a fuga de dólares de nossa economia. Com a coragem e a lucidez habituais, o professor Roberto Campos exortou nosso governo a deixar de lado o orgulho ferido e a ir buscar a solução menos onerosa para os brasileiros, reduzindo o impacto da crise sobre o crescimento de nossa economia.
O governo enrolou dois dias, tentou esconder o jogo, mas finalmente na terça-feira admitiu que está em entendimentos para eventualmente buscar os recursos para enfrentar a crise. Até agora, o Banco Central vem tentando conter a fuga de capitais lançando mão de medidas medíocres e socialmente onerosas, como o aumento das taxas de juros. Foi assim em março de 1995, em decorrência da crise mexicana, quando corrigiu timidamente o câmbio e elevou os juros, produzindo o mais violento constrangimento de crédito de que se tem notícia. O PIB brasileiro estava crescendo a taxas superiores a 3% e passou a crescer em torno de 2% nos anos seguintes. A economia e o comércio mundiais passavam por um período de expansão que nós não soubemos aproveitar, porque mantivemos a defasagem cambial!
Entre 1995 e 1997 desperdiçamos várias oportunidades de corrigir o câmbio, mantendo as exportações em ritmo preguiçoso e aumentando a vulnerabilidade externa de nossa economia. Nossa participação no comércio caiu para 0,8% do total mundial, após ter alcançado 1,4% nos anos 80. E o crescimento do PIB continuou entre 2% e 3%, deixando de gerar os empregos necessário para atender a procura de trabalho pelos brasileiros. Em outubro de 1997, a mais que anunciada crise dos mercados financeiros explodiu na Ásia e a única coisa que o governo soube fazer foi dobrar as já escorchantes taxas de juro! Novamente, procurou-se fazer o ajuste às custas do crescimento da economia. Chegamos ao final do primeiro semestre de 1998 com o PIB crescendo 0,5% e com o desemprego atingindo picos recordes.
O Brasil tem hoje a menor taxa de crescimento da América Latina e um volume de comércio exterior desprezível para a dimensão de sua economia. E somos o país que apresenta a maior vulnerabilidade diante das turbulências nos mercados financeiros, como está sendo demonstrado. Nem mesmo a elevação dos juros foi capaz de conter a fuga de capitais, em busca de pouso mais seguro. Os países mais inteligentes trataram de corrigir o câmbio e conseguem manter suas economias funcionando com taxas de juros suportáveis pelo setor privado. Já as nossas empresas são massacradas por uma política sem imaginação. Ficamos enrolando todo o tempo, repetindo a ladainha das reformas e restringindo o crescimento para defender o câmbio.
Os economistas do governo não podem alegar que não foram alertados para a armadilha em que estavam se metendo. A alternativa defendida pelo professor Roberto Campos pode ser amarga do ponto de vista político mas é, provavelmente, a que permitirá reduzir com mais rapidez os custos que a sociedade será obrigada a pagar até que se corrija o câmbio, as exportações reajam, os juros baixem e a economia volte finalmente a crescer.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento





