Delfim Netto
Prisioneiros
da banca
Vamos direto ao ponto, recorrendo ao mestre dos mestres da dramaturgia (William Shakespeare) para tentar entender o imbróglio que envolve a nossa economia: ‘‘As coisas feitas podem ser desfeitas, mas não podem ser não feitas’.
Provavelmente, após três anos castigando o setor exportador com a defasagem cambial e penalizado todos os demais setores produtivos com taxas de juros abusivas, os nossos teólogos da especulação financeira gostariam muito de ‘‘não ter feito’’ a sobrevalorização do real. O pior é que não há como desfazer o estado de vulnerabilidade a que chegou nossa economia, atolada no déficit externo e na dívida pública interna. Pelo menos durante a emergência que estamos passando. Enquanto perdurar a inquietação nos mercados não dá para pensar em mexer na alavanca do câmbio, que é o que teremos que mover, mais adiante, para promover exportações e reduzir a dependência exagerada dos financiamentos externos. Podia ter sido feito durante o entreato da crise mexicana e da tragédia asiática, mas deixamos passar a oportunidade.
Todos sabem o que não é possível fazer, inclusive o governo. Mas, então, o que nos resta? No curto prazo, resta-nos restringir ainda mais o crescimento, elevando juros e impostos e ameaçando mais uma vez cortar as despesas públicas. No médio prazo, tentar fazer deslanchar pela enésima vez programas de estímulo às exportações. É uma tentativa louvável, mas de duvidosa eficácia e difícil implementação, principalmente no caso das pequenas empresas. É preciso insistir nesse caminho, porém, até porque não há alternativa.
Não devemos ter ilusões quando às consequências das medidas que o governo anunciou para contornar a crise. No que diz respeito à vida dos cidadãos, elas acrescentam novas dificuldades aos problemas já existentes, dado o seu caráter nitidamente recessivo: restringem ainda mais o mercado de trabalho e aumentam os custos das compras a crédito. O efeito nesses aspectos é imediato.
As empresas comerciais vão sofrer com a queda nas vendas e reduzirão suas encomendas à indústria, propagando esses efeitos à área de serviços. Os preços agrícolas, que já estão em níveis muito baixos, não deverão reagir apesar do encurtamento das safras, dificultando a reativação do setor rural. Em resumo, a economia, que teve um desempenho fraquíssimo no primeiro semestre, com um crescimento restrito a 0,5% do PIB, ameaça chegar ao final do ano com um resultado muito parecido, o que é uma performance indecente para os padrões brasileiros.
Por não ter feito os ajustes que deveria ter feito nesses três anos na área de câmbio, tornou-se uma constante nesse governo realizar o ajuste constrangendo o crescimento da economia. Graças a uma confusa ideologia praticada pelo Banco do Brasil que privilegia a atividade financeira em detrimento da atividade produtiva, a nona economia do Ocidente está sendo ‘‘puxada pelo nariz’’, atada aos interesses da banca internacional. Tornamo-nos reféns do mercado financeiro mundial, que impõe um custo social imenso ao povo brasileiro, sob as vistas complacentes do grão-mestre da moderna sociologia emergente...
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento

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