Delfim Netto
Senhores
do tempo
De Montevidéo, após participar de um seminário da Associação de Dirigentes de Marketing do Uruguai, o elegante ministro da Fazenda sentiu-se na obrigação de enviar aos contribuintes brasileiros a seguinte mensagem: ‘‘Quero deixar claro que não haverá qualquer tipo de pacote de medidas econômicas após as eleições de outubro e sim a adoção de um programa que tratará de questões fiscais em sua dimensão adequada de tempo. O objetivo do programa é a geração continuada de superávits primários para estabilizar a relação entre a dívida do setor público e o PIB’’. Para tranquilidade dos espíritos, acrescentou: ‘‘Não haverá surpresa na população após um longo fim de semana...’’
Esse aviso tem características semelhantes ao daquela famosa (e macabra) piada, na qual o cidadão toma cuidados especiais para comunicar o parente o infausto acontecimento: ‘‘Vovó subiu ao telhado...’’ O que o ministro quis comunicar ao sofrido contribuinte é que ele deve estar preparado para pagar mais impostos, suavizando a mensagem com a ressalva que isso se dará ‘‘na dimensão adequada do tempo...’’ Seria exigir muito, em nome da transparência, que a autoridade econômica viesse a público dizer francamente ao eleitor/contribuinte que chegou o momento de pagar o que lhe cabe pelo aumento da dívida pública. E que, sinceramente, esse aumento resultou da brutal elevação da taxa de juros, necessária para defender a sobrevalorização do real!
O governo vem recorrendo à toda sorte de subterfúgios para esconder da população a verdadeira natureza do problema que estamos enfrentando. Mais do que isso. Em lugar de corrigir a política cambial que gerou o enorme desequilíbrio nas contas externar e internas, preferiu impor um custo absurdo à toda a sociedade com elevação dos juros. Fez uma aposta curiosa, como se acreditando que era senhor do tempo, como pare acreditar hoje: ‘‘Com o passar do tempo, a produtividade da economia crescerá e as exportações voltarão a crescer o suficiente para eliminar a restrição externa’’.
Para que não perdessemos a aposta, era necessário que as exportações crescessem consistentemente a taxas de 12% ou 14% ao ano. Após um período de crescimento devido à elevação dos preços externos das commodities, as exportações voltaram ao insuficiente nível de 4% anuais. Com ‘‘o passar do tempo’’ o constrangimento externo aumentou, deixando a economia brasileira numa posição de externa vulnerabilidade.
A crise asiática de outubro do ano passado obrigou a nova elevação dos juros, o que não refresca a situação externa e agrava fortemente os problemas internos: a elevação da taxa de juros exigida para a defesa do real resultou em queda ainda maior da taxa de crescimento da economia, reduzindo a receita pública e aumentando a despesa (para pagar os juros do estoque da dívida pública).
O aumento da despesa com juros vai ser inevitavelmente cobrado da sociedade sob forma de novos impostos. Os ‘‘senhores do tempo’’ perderam a aposta, mas o pagamento ficará por conta do contribuinte. Apesar da sutileza do recado, é esse o sentido da mensagem de Montevidéo...
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento

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