Delfim Netto
Delfim Netto
Previsões e
premonições
No dia 29 de julho, sob o título Real 2, o espectro, a Folha de S.Paulo iniciou um de seus editoriais parafraseando a famosa abertura do Manifesto Comunista de 1848 - Um fantasma ronda a economia brasileira: a edição de um forte pacote econômico logo depois das eleições... O texto deste magnífico editorial se reporta à rápida deterioração das contas pública, afirmando que nos últimos meses, para defender o câmbio que sustenta o real, o governo promoveu um choque de juros que piorou ainda mais as contas públicas. Fazer o ajuste fiscal necessário, entretanto, colide frontalmente coma as conveniências eleitorais.
Provavelmente os leitores lembram-se da insistência com que venho cobrando o ajuste das contas públicas. Uma das características deste governo é a capacidade de adiar a solução dos problemas da economia. Tudo ficou para ser resolvido no século 21, num segundo ou terceiro mandatos tucanos.
Assim é que os comunicados oficiais nos informam que em 2001 estaremos produzindo 100 milhões de toneladas de grãos, em 2002 as exportações ultrapassarão US$ 100 bilhões, em 2003 as taxas de juros terão baixado aos níveis internacionais e em 2004 o déficit fiscal terá se transformado num superávit de uma vírgula qualquer coisa do PIB...
Essas elocubrações são alegremente reproduzidas na mídia, sem levar em conta que: 1) A safra agrícola 97/98 encolheu em relação à do ano anterior. Colhemos 3 milhões de toneladas a menos que a previsão feita há apenas 8 meses! O comportamento dos preços agrícolas não oferece perspectivas de reversão rápida no processo de descapitalização que atingiu o setor rural; 2) As exportações se mantiveram absolutamente preguiçosas nesses quatro anos, enquanto o governo encampava a aposta segundo a qual os ganhos de produtividade seria de tal magnitude que as exportações recuperariam seu dinamismo independentemente do nível da taxa cambial! Se não tivessem perdido a aposta fajuta, os fundamentalistas do Banco Central seriam fortes candidatos ao Prêmio Nobel de economia... 3) As previsões quanto ao comportamento das taxas de juros podem até se realizar, mas por enquanto têm valor de uma simples adivinhação.
Nos 34 meses decorridos entre a crise mexicana e a crise nos bancos asiáticos, deixamos de aproveitar os períodos de calmaria nos mercados financeiros para ampliar a banda cambial, o que permitiria a queda dos juros e a recuperação da capacidade de crescimento de nossa economia. Com a crise na Ásia perdemos a liberdade de mexer no câmbio, além de sermos obrigados a elevar ainda mais as taxas de juros por exigência dos credores externos; 4) O estrangulamento da economia produzido pelas taxas de juros reduz ainda mais as chances de reversão de déficit fiscal que já se aproxima de 7% do PIB. Sem a queda dos juros não haverá retomada do crescimento e sem crescimento é ainda mais ilusório pensar em superávit fiscal.
Não há espaço para aumento da carga tributária e a despesa continua se expandido. A dívida pública, contaminada pelos juros, passou de 20% do PIB e, 1994 para 36% do PIB no segundo trimestre de 1998. As despesas com juros estão no patamar de R$ 54 bilhões, o que é um valor duas vezes e meia superior ao que se espera conseguir com as privatizações este ano.
É certo que o dinheiro das privatizações alivia a conta de juros, mas não reduz a inquietação do mercado externo diante dos montantes exigíveis e da erosão das contas internas.
Faltam apenas 60 ou 80 dias para que se decida a reeleição. Até lá o governo acredita que não precisa agir. Pode continuar se fingindo de morto. Para o que vem depois, é interessante ter em mente a lúcida observação do professor Celso Furtado em recente entrevista: Seja quem for o sucessor do Sr. Fernando Henrique, não queria estar na sua pele...
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB/SP e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento





