DELFIM NETTO
Gostaria de estar enganado, mas tenho a impressão que o governo comemorou antes da hora os números da safra agrícola 1999/2000. Seria muito bom para o País se atingíssemos a produção recorde de 85 milhões de toneladas de grãos, mas os últimos levantamentos indicam uma colheita entre 83 e 84 milhões, o que na verdade repete a performance dos últimos cinco anos em que a produção esteve estagnada.
Neste ano aumentam as safras no Nordeste, onde o clima surpreendeu favoravelmente, com chuvas na hora certa, mas na região Centro Sul que responde por algo próximo de 90% da produção uma seca prolongada frustrou as expectativas de crescimento e colheitas importantes, como a do milho, foram bastante prejudicadas. E, agora, a geada forte. Acredito, portanto, que está havendo uma superestimação do volume da safra, gerando o temor de que a comemoração do recorde de produção (que não se confirma) sirva de estímulo para reduzir ainda mais o suporte oficial ao setor.
A agricultura pagou um preço muito alto pela estabilização da moeda nesses últimos cinco anos, O estoque de capital dos agricultores se reduziu, seu patrimônio se desvalorizou e ainda resta um enorme endividamento no setor. Os preços agrícolas caíram, mas há alguma expectativa de melhoria nos próximos meses, o que oferece a oportunidade de se iniciar um processo de recuperação da renda dos produtores.
É responsabilidade do governo providenciar o suporte de financiamento aos verdadeiros agricultores que se mantiverem em suas terras produzindo o alimento dos brasileiros, a despeito de todas as adversidades.
O que assistimos, no entanto, é o tratamento absolutamente assimétrico que o governo dá aos problemas do setor: os produtores rurais, que trabalham nas suas propriedades ao arrendar terras para o cultivo, continuam enfrentando enormes obstáculos no acesso ao financiamento das safras. Não têm crédito, não têm segurança, suas terras são invadidas ou estão permanentemente sob ameaça de invasão. Ninguém lhes repõe o gado abatido, não se lhes oferece indenização para a casa incendiada ou para a colheita destruída. Se vão a Brasília protestar contra esse estado de coisas, são isolados dos ministérios e tratados como caloteiros.
É o contrário do tratamento dispensado aos invasores. Como se viu recentemente na pantomina armada na capital federal. O Incra se reúne com lideranças do MST e oferece recursos para que eles fiquem quietos. Por algum tempo... Repete-se este teatro, de quando em quando, o teatro do absurdo: o governo federal financiando o MST que ameaça os agricultores que produzem e pagam os impostos que vão sustentar os invasores...
Todos sabem que há um enorme desperdício (se não for coisa pior) nas chamadas cooperativas organizadas pelas lideranças do movimento. Pouco ou nada se produz, mas persistem as ameaças de violência contra os fazendeiros que, mal ou bem, estão tentando cuidar de seus rebanhos em paz ou produzir os grãos para abastecer o mercado interno e exportar.
É preciso reconstruir os sistemas de crédito rural e dar segurança aos pequenos, médios e grandes agricultores para que eles voltem a investir e possam oferecer parcerias e oportunidades de trabalho para os milhares de desempregados das fazendas.
É preciso apoiar, por exemplo, os programas do Ministério do Trabalho e da Agricultura que agilizam a recontratação dos trabalhadores rurais. Sem novos investimentos seja em equipamentos, seja na absorção de mão-de-obra não vamos atingir os pretendidos recordes na produção de alimentos. Somente com o crescimento rápido da produção nas regiões tradicionais e com a expansão da fronteira agrícola é que teremos novamente alguma paz no campo.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP, ex-ministro e atual presidente da Comissão Permanente de Finanças e Tributação da Câmara Federal





