DELFIM NETTO
Aquilo que muitas pessoas, especialmente os habitantes das cidades, costumam atribuir à ausência do governo é, de fato, a atitude omissa da autoridade diante das seguidas violações do direito de propriedade. É resultado de uma conspiração alimentada com recursos públicos e que está levando à abolição daquela garantia constitucional no meio rural brasileiro.
Isso ficou evidente na excelente reportagem do jornalista Josias de Souza, publicada na Folha de S.Paulo na última semana, mostrando o uso de recursos oficiais para sustentar a ação de lideranças que promovem a invasão de propriedades rurais e de edifícios públicos, a pretexto de pressionar por uma reforma agrária...
A reportagem teve a capacidade de desvendar a magnitude dessa conspiração, bem como os mecanismos pelos quais as lideranças do MST se apropriam de uma espécie de pedágio, extraído de recursos desviados da sua finalidade própria, que seria o financiamento da produção e da instalação dos sem-terra nos assentamentos do Incra.
As manifestações do governo, demonstrando surpresa com os fatos narrados na reportagem e suspendendo os financiamentos até segunda ordem são de um cinismo atroz.
Há pelo menos dois anos, parlamentares que representam os eleitores do meio rural têm ocupado a tribuna do Congresso, criticando o governo pelo fato que os verdadeiros agricultores aqueles que vivem efetivamente do trabalho na terra não têm acesso aos mecanismos de crédito, de seguro de safra, de garantia de comercialização, enquanto vultosos recursos são desperdiçados para acomodar invasores de propriedades, para financiar pseudo-cooperativas, apenas para manter caladas algumas lideranças do MST.
Quando o dinheiro acaba, partem para novas invasões e novas exigências. O governo, portanto, tinha notícia desses fatos há bastante tempo, e não podia ser de outra forma, já que os recursos eram repassados ao MST pelo INCRA, que fechava acordos com as lideranças para a retirada do que correspondia a 3% de todas as verbas para suprir as necessidades de assentamento de milhões de trabalhadores rurais. Deve ser esta a maior reforma agrária do mundo... como nos informa despudoradamente a propaganda oficial...
Após o escândalo produzido pela comprovação do desvio de recursos patrocinado pelo órgão gestor, o governo foi obrigado a agir e suspendeu os financiamentos. O que se espera, agora, é a ação do Ministério Público para a apuração das responsabilidades do Incra.
Isso impedirá que se renove a conspiração mais adiante, com o governo novamente cedendo à chantagem do MST, deixando que a insegurança se alastre ainda mais no interior do País, até o ponto em que os verdadeiros agricultores sejam levados a defender com meios próprios as suas famílias e a integridade de suas propriedades.
Quem tem que ser chamado a se explicar não é apenas o pessoal do MST, mas sim os funcionários públicos que participaram da conspiração, autorizando e liberando recursos públicos para financiar um movimento que vem produzindo grave perturbação social e levando à violação do direito de propriedade.
Recentemente, a rede de TV mundial CNN se assustou com o aumento da insegurança em nosso meio rural, comparando a nossa situação com a do Zimbabwe, onde ex-guerrilheiros estão massacrando fazendeiros. Certamente houve um exagero, mas cabe ao nosso governo agir para poder mostrar lá fora o quanto a comparação é injusta...
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP e presidente da Comissão Permanente de Finanças e Tributação
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