Delfim Netto Petróleo e crise Nas últimas semanas temos assistido a uma discussão, nem sempre muito esclarecedora, em torno da alta dos preços do petróleo no mercado internacional. O próprio Presidente da República abordou a questão numa de suas recentes viagens ao exterior, afirmando que não haverá elevação dos preços internos da gasolina, pelo menos no primeiro semestre. Quer dizer, não haverá outro aumento, porque já houve um pequeno acréscimo, há pouco tempo. Toda essa discussão se prende ao fato que está existindo uma alta volatilidade nos preços do petróleo, porque os países membros da OPEP reduziram a oferta do produto no momento em que houve um aumento da demanda mundial devido ao rigor do inverno no hemisfério norte e também à recuperação de algumas economias asiáticas. Os preços subiram desmedidamente, alcançando a cotação de 32 e 33 dólares o barril, o que é uma alta considerável, embora não se possa comparar ainda a atual situação à que vigorou no auge da crise do início dos anos 80. De qualquer forma é uma situação perturbadora, devido à alta volatilidade que se apossou do mercado, com os preços subindo e descendo muito rapidamente. Foi isso que levou o governo americano a reagir, já que eles são os maiores importadores mundiais, procurando induzir o Irã, o México e a Venezuela a aumentarem a sua produção, fugindo ao esquema da OPEP. O que se pretende é que a oferta aumente uns dois milhões de barris/dia. Creio que isso será atingido e provavelmente os preços não se sustentarão no nível de 32 ou 33 dólares o barril. Já houve, aliás, uma pequena queda nos últimos dias e minha convicção é que cairão ainda mais nas próximas semanas, diante da determinação americana de aumentar a sua produção interna, se isso se tornar necessário para conter os preços. Na segunda metade da década de 70 e no início da de 80 o Brasil enfrentou uma grave crise com a alta dos preços do petróleo, provocada pela ação coordenada dos países exportadores que reduziram a oferta do produto por um longo período. O preço do barril passou de US$ 1,60 em 1973, para US$ 36,0 em dólares de 1982! No começo da crise, o Brasil tinha uma produção doméstica que cobria apenas 20% do consumo. A quase totalidade dos investimentos públicos foi concentrada na área energética e em dez anos a produção interna foi quintuplicada, passando a atender cerca de 60% do consumo doméstico de derivados do petróleo. O setor privado foi estimulado e respondeu positivamente com a produção de álcool, no programa conhecido como Proálcool, atendendo a uma parcela importante do consumo de combustíveis. Quando os preços do petróleo no mercado internacional não mais puderam ser sustentados pelos países exportadores membros da OPEP, caindo de 34 dólares para 12 dólares o barril, na segunda metade dos anos 80, os investimentos no setor energético brasileiro já não mereceram a alta prioridade do período anterior, o que foi um erro. A produção doméstica de petróleo voltou a crescer mais lentamente e o álcool foi praticamente esquecido pelos governos. Ainda assim, a situação atual não se compara com a crise dos anos 80. A elevação dos preços internacionais do petróleo não foi tão violenta e nem é sustentável por muito tempo. A produção doméstica não aumentou como seria desejável, mas já cobre hoje 80% do consumo interno. E, depois de muita hesitação, voltamos a dar atenção à produção de álcool. Com a flexibilização do monopólio estatal no setor petróleo, após 50 anos podemos contar com investimentos privados para aumentar a produção e com a aceleração dos trabalhos da própria Petrobrás, que rapidamente teve que se preparar para enfrentar a competição. Estes novos investimentos nos permitem alimentar a expectativa de que estamos próximos de atingir a auto-suficiência no abastecimento de petróleo, digamos, dentro de 3 a 4 anos. Significa que temos condições de enfrentar com mais tranquilidade eventuais crises no setor. - ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB/SP e-mail: [email protected]

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