Delfim Netto Devagar com o andor Antes de insistir no caminho que está nos levando a uma rápida desnacionalização do sistema bancário brasileiro, o governo deveria refletir sobre um antigo ditado de Brainard: ‘‘Quando você não sabe o que está fazendo, faça-o devagar...’’ A verdade é que não sabemos o que vai acontecer na economia brasileira quando o sistema bancário de varejo estiver sendo controlado do exterior. Por isso é preciso ir com extremo cuidado nesta questão, trazendo os burocratas do Executivo ao debate que está sendo proposto no Congresso e na imprensa para que, pelo menos, algumas dúvidas bem fundadas sejam esclarecidas. Deveríamos, inicialmente tentar responder à seguinte pergunta: por que será que as 15 maiores economias do mundo (o Brasil é a oitava) não registram uma participação importante de capitais estrangeiros em seus sistemas bancários de varejo? O Brasil é exceção e está a caminho de ocupar uma indesejável preeminência nesse processo. Nos quinze maiores bancos do Japão, Alemanha, França, China, Rússia e Coréia, a participação estrangeira é zero; na Inglaterra, Itália e Holanda, é de 2%; no Canadá e na Espanha é de 3%; na Austrália chega a 4% e nos Estados Unidos, reconhecido ‘‘patrono’’ da liberalização, é de 5%. No Brasil, essa participação já chega a 22% e, se vendermos aos bancos estrangeiros o resto que falta dos bancos estaduais, sobe para cerca de 40%. Há evidências que a alta cúpula do governo não percebeu ainda a nova armadilha que se está construindo para a economia brasileira. Não participa de uma discussão séria sobre o assunto e age para impedir que o Congresso seja ouvido previamente às autorizações para o aumento da participação estrangeira no varejo bancário. A comparação do Banco Central sobre o comportamento dos bancos brasileiros e estrangeiros na desvalorização cambial de janeiro de 1999 não ajudou em nada a compreensão do problema. Dizer que foi um banco brasileiro que mais lucrou na época da desvalorização, fala apenas a favor da competência do nacional. Não se tocou no ponto mais importante que era verificar os fatores objetivos que determinaram os comportamentos diferenciados em períodos de crise. Naquela ocasião os bancos estrangeiros, com raras exceções, cortaram US$ 20 bilhões dos créditos de ‘‘trade finance’’, que normalmente têm renovação quase automática. E só voltaram a concedê-los lentamente após o mês de abril. Nesse período, apenas os bancos brasileiros continuaram a fornecer esse tipo de financiamento com seus parcos recursos e restritos ‘‘fundings’’ de bancos estrangeiros. Não se trata de xenofobia, portanto, ou de buscar proteção aos banqueiros nacionais. O Brasil precisa de um sistema financeiro forte, ágil, competitivo e capaz de internacionalizar-se. Tem que ter predominância nacional, mesmo, com limites à participação estrangeira como acontece nas maiores economias. Antes que avance o processo de desnacionalização, temos o direito de saber o que o futuro nos reserva quando o sistema bancário de varejo for dominado por agentes cuja concessão de crédito é definida nos comitês de risco de seus países de origem. O Brasil tem a obrigação de, pelo menos, tentar ser um parceiro global, com um comportamento compatível com a posição de oitava economia do mundo. Isso exige um sistema financeiro liderado por fortes bancos nacionais. O leitor que desejar outras informações sobre o assunto, poderá encontrá-las num texto mais amplo na revista ‘‘Carta Capital’’, edição datada do último dia 15. - ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP e presidente da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara Federal E-mail: [email protected]