Delfim Netto Mão (in)visível Respeitável banqueiro vai à TV e diz que ‘‘se a economia crescer, haverá mais demanda por crédito e os bancos poderão emprestar mais ao setor produtivo’’... Ilustre coletor de impostos diz que ‘‘se a economia crescer, vai melhorar a arrecadação, sem necessidade de aumentar os impostos’’... Sua excelência, o presidente da República declara que ‘‘se a economia crescer’’... não devemos ter receio de problemas com a remessa de lucros e dividendos ao exterior, porque serão tantas as oportunidades de investimento que os recursos serão reinvestidos aqui mesmo. Essas três afirmações não agridem o senso comum mas... não seria menos complicado admitir que: 1) A economia não cresce porque o alto nível das taxas de juros e a inadimplência impedem o setor produtivo de tomar empréstimos para reconstruir o capital de giro ou para novos investimentos? 2) A economia não cresce porque o setor produtivo está sufocado pela enorme carga tributária que não cessou de aumentar nos últimos cinco anos? E 3) Em lugar de contarmos candidamente com aquela possibilidade (um fluxo de recursos externos permanentemente disponíveis), não seria melhor nos dedicarmos a um robusto programa de exportações, acumulando saldos comerciais para melhor enfrentar os problemas do balanço de pagamentos? Não é possível ignorar o fato que nossa economia se tornou extremamente vulnerável, graças à enorme dívida externa contraída nos últimos cinco anos. E enfraquecemos a estrutura interna de produção graças aos juros e impostos escorchantes. Para reverter essa situação, é preciso ajudar as empresas brasileiras a resolver seus problemas fiscais e de crédito, com o Refis, com um programa de refinanciamento bancário usando os depósitos compulsórios e com taxas de juros decentes. O presidente da República é um homem inteligente que consegue se antecipar ao seu tempo. Isso foi demonstrado em mais de uma ocasião, inclusive quando pediu que não nos prendêssemos aos seus escritos acadêmicos, dentre os quais uma curiosa teoria da dependência da América Latina. O problema é que em seu governo temos sido levados muito além da teoria, pela prática de políticas que permitiram um extraordinário aumento da dependência de nossa economia em relação ao exterior. As exportações agrícolas são controladas por um grupo restrito de tradings internacionais. Na indústria, a âncora cambial e as diferenças entre a taxa de juro interna e externa possibilitaram aos concorrentes estrangeiros a compra, a preços de ocasião, de importantes setores de nosso parque fabril. Não é razoável imaginar que uma desnacionalização ainda mais ampla venha a dominar o sensível setor financeiro, transferindo para o exterior as decisões estratégicas sobre a aplicação da poupança nacional e a escolha das prioridades dos investimentos em nossa economia. A ‘‘mão invisível’’ (mas perfeitamente discernível) do mercado financeiro internacional ditaria os rumos de nossa economia. Apesar de aparentemente não querer reconhecer os riscos dessa situação, recentemente o presidente da República referiu-se à necessidade de se discutirem possíveis caminhos para o desenvolvimento brasileiro. De minha parte, há cinco anos venho pedindo esse debate. Ainda é tempo de reverter o que parece ser a marcha inexorável para tornar realidade a ‘‘teoria’’ da dependência elaborada pelo ilustre sociólogo que nos governa. - ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP e presidente da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara dos Deputados E-mail: [email protected]

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