O PIB brasileiro cresce mesmo 4% este ano?
Um dos resultados mais dramáticos da economia brasileira em 1999 foi a grande redução da massa de salários no setor industrial. De acordo com levantamentos que a Confederação Nacional da Indústria divulgou há alguns dias, a massa salarial – isto é, a soma de todos os salários pagos aos trabalhadores na indústria – caiu mais de 9% em relação a 1998. Não há registro, na última década, de uma queda tão violenta no rendimento dos assalariados brasileiros.
É essa erosão da renda salarial que explica em parte porque a demanda enfraqueceu, porque o PIB praticamente não cresceu no ano passado. O nível de emprego continuou caindo até o final de 1999 e o que é mais grave: aumentou o desemprego e caiu o número de horas trabalhadas.
Aparentemente, 2000 se apresenta com uma nova condição. Há os primeiros sinais de recuperação da atividade industrial, sinais ainda muito tênues mas que apontam na direção contrária do que aconteceu em 1999, que foi na realidade trágico para o trabalhador brasileiro.
A propaganda do governo tem insistido que o PIB do Brasil vai crescer no ano 2000 em torno de 4% em termos reais, isto é, que o volume total da produção de bens e serviços no Brasil vai crescer 4%. A pergunta é de onde o governo tirou esse número e a resposta é simples: de nenhum lugar. Não chega a ser uma previsão, mas sim um desejo. A economia pode crescer, mas isso vai depender da política econômica que o governo utilizar.
O problema básico da administração da economia é o de devolver às empresas nacionais o capital de giro que lhes foi subtraído durante o Plano Real. Capital de giro exaurido pelas maiores taxas de juros do mundo, pela valorização do câmbio e pelo enorme aumento das tributações ocorrido nos últimos quatro anos.
Quando o governo entender que é preciso devolver às empresas o seu capital de giro, através de créditos convenientes e juros suportáveis, a produção volta a crescer e a economia se reanima fazendo reaparecer o emprego. O governo não pode deixar de se empenhar a fundo no suporte às exportações industriais que começam a reagir depois da correção do grave erro da política cambial.
Infelizmente o governo gasta mais energia em confusas manobras para responsabilizar o Congresso pelas dificuldades da economia do que em exercer a liderança efetiva do processo de desenvolvimento. Não resolve suas contradições internas e com isso dificulta e perturba a ação parlamentar, postergando a aprovação da reforma tributária que permitiria desonerar as empresas da pesada e irracional carga fiscal, principalmente dos impostos em cascata que encarecem e desestimulam a produção.
Nenhum esforço de propaganda pode convencer a sociedade que o governo tem uma estratégia de crescimento, se suas ações não refletem a perseguição coerente do objetivo. Como disse Henry Kissinger no seu livro Diplomacia: ‘‘lideranças confusas tendem a substituir o sentido de direção pelas manobras de relações públicas’’.
As consequências, para os liderados, são trágicas...
ANTONIO DELFIM NETO é deputado federal pelo PPB-SP e presidente da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara Federal. Email: [email protected]