Debate inadiável
Há muito pouca discussão na imprensa sobre os gastos publicitários do governo federal. No período 1996/1999, a soma das despesas com a propaganda oficial atingiu o montante de R$ 2,2 bilhões. A previsão para o ano 2000 é de R$ 700 bilhões, o que significa que o governo se dispõe a gastar cerca de R$ 2 milhões diariamente na divulgação de seus atos. O cidadão-contribuinte que é ao mesmo tempo o patrocinador-pagador e ‘‘público-alvo’’ da mensagem oficial é muito mal informado quanto à natureza desses gastos.
É impossível ignorar o fato que nos últimos anos a distribuição da publicidade oficial buscou muito mais influenciar corações e mentes do que explicar ações de governo. É inegável que o poder de propaganda do governo foi abusivamente utilizado para interditar o debate sobre os problemas que incomodavam a equipe econômica durante o primeiro mandato tucano.
O mais importante desses temas ‘‘proibidos’’ foi o crescimento exponencial do desemprego que nos levou à triste condição de recordista mundial dentre os países que mais suprimiram postos de trabalho. Só fomos superados nesse teste de incompetência e desordem econômica pela Índia e Rússia. Um desonroso terceiro lugar nas estatísticas de desempregados, com 7,7 milhões de excluídos do mercado de trabalho, contra 9 milhões na dissolvida União Soviética e 40 milhões na Índia.
Nesses anos todos, qualquer tentativa de mostrar o avanço da tragédia que atingia os lares brasileiros era simplesmente varrida do noticiário, geralmente a golpes de arrogância. Quem não se recorda do tom prepotente com que os ‘‘nouveaux économistes’’ desqualificavam as críticas, sob o ‘‘argumento’’ que ‘‘o desemprego é consequência dos profundos avanços tecnológicos incorporados à economia brasileira’’? E que nada mais representava do que o resultado de excepcionais ganhos de produtividade que na realidade nunca foram demonstrados?
Alegações pueris, desmontadas pelo autor da pesquisa sobre o desemprego mundial, economista Márcio Pochmann, ao mostrar que o país que mais criou empregos nestes anos de evolução tecnológica foram exatamente os Estados Unidos. ‘‘Pela lógica – diz ele – o desemprego nos países desenvolvidos, os mais evoluídos tecnologicamente, teria que ser maior.’’
Um pouco mais de debate público teria evitado que o plano real terminasse estigmatizado com tão tristes recordes: quase 8 milhões de sem-emprego no Brasil, sendo 1,8 milhão apenas em São Paulo, onde o período médio de desemprego alcança 42 semanas.
É de se esperar que o governo não utilize o seu renovado poder de propaganda para interditar o debate sobre as políticas de crescimento econômico, única forma de reverter esse trágico processo. E menos ainda que o faça para impedir a discussão sobre a desnacionalização de nossa economia que já engoliu um pedaço de nosso parque industrial, subjugou a agricultura e agora avança sobre o setor financeiro.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP e presidente da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara Federal
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