Delfim Netto





O desafio presidencial
Um sinal importante de mudança de rumos (para melhor) nas decisões de política econômica do governo nos foi dado esta semana pelo presidente da República, ao participar da abertura da Couromoda, evento patrocinado pela indústria calçadista em São Paulo. Numa certa medida, todos nós estamos escaldados diante dos sinais contraditórios que emanam dos altos escalões deste governo, mas no presente episódio, o compromisso do presidente não deixa dúvidas: seu governo estará empenhado a partir de agora em restabelecer as condições isonômicas que permitirão a retomada das exportações industriais, facilitando o acesso ao crédito e desonerando a produção exportável da atual carga de impostos.
Na realidade, o Sr. presidente deve ter se entusiasmado com os números que atestam a recuperação das exportações do setor de calçados este ano, estimulada pela correção da nefasta política cambial que vigorou até janeiro de 1999.
É apenas um início de recuperação que vem acontecendo não apenas neste setor, mas que já se verifica em outras áreas como as de tecidos e de papel e papelão que aos poucos vão readquirindo a capacidade de competir no mercado externo.
A importância dessa manifestação está em que finalmente S. Exª. demonstrou compreender que sem uma ação vigorosa de governo no suporte às exportações industriais não alcançaremos o ritmo de crescimento da economia necessário para atingir a meta prometida em sua campanha pela reeleição: a de reduzir os níveis de desemprego da mesma forma que se reduziram os níveis da inflação em seu primeiro mandato.
Devemos aproveitar essa nova postura – mesmo que ainda no campo da retórica – para reiniciar o debate sobre as políticas que nos permitam ingressar em nova fase de desenvolvimento, com equilíbrio interno e externo.
Certamente não tivemos, nos últimos quinze anos, condições tão favoráveis para a retomada do crescimento, sem prejuízo da estabilidade, como as que passaram a existir a partir do momento em que nos libertamos da armadilha cambial.
É por demais evidente que o ritmo desse crescimento será maior ou menor em decorrência de decisões políticas do governo federal. É falsa a idéia que ‘‘a inserção dos países no mercado globalizado’’ dispensa, inibe ou proíbe a intervenção governamental nas economias nacionais. E é mais falso ainda imaginar que nos países que praticam o ‘‘liberalismo econômico’’ os governos se abstenham de comandar políticas industriais, deixem de proteger seu comércio das agressões externas ou abandonem o setor agrícola às ‘‘forças do mercado’’.
Não podemos deixar passar a oportunidade de acelerar o nosso crescimento. É função do governo implementar políticas que levam ao crescimento e é dever dos setores produtivos cobrar do governo a sua realização, como aliás sugeriu o próprio Presidente, em São Paulo.
- ANTONIO DELFIM NETTO e deputado federal pelo PPB-SP e presidente da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara Federal
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