Delfim Netto
Um pouco mais de coragem (2)
Na semana passada, comentamos o comportamento da economia em 1999, concluindo que a correção política cambial restabeleceu algumas das condições básicas para que o País volte a crescer, sem inflação. Infelizmente, pouco aproveitamos as possibilidades de crescimento em 1999. Estivemos paralisados pelo receio, a meu ver exagerado, de uma recidiva da inflação. E também porque estávamos presos a uma cláusula do acordo com o FMI que impediu o Banco Central de intervir para evitar que o real se desvalorizasse além do que era necessário. Como o acordo com o FMI foi feito basicamente para pagar os bancos credores, ele estabeleceu limites para a utilização das reservas. Sem liberdade para utilizar as reservas, o Banco Central teve que assistir passivamente ao excesso de desvalorização, aumentando o risco de inflação. De novembro em diante, o Banco Central recuperou alguns graus de liberdade para usar as reservas e a taxa cambial vai voltando aos poucos à normalidade.
Essa recuperação é importante porque ela vai diminuindo um pouco a paranóia que se apossa do mercado financeiro (e às vezes é estimulada por ele) em relação à inflação, e que já levou o Banco Central a suspender temporariamente o movimento de baixa das taxas de juro. O governo precisa fazer logo uma escolha fundamental de política: se vai deixar-se manipular pelas pressões de mercados financeiros ou se vai finalmente aliar-se ao setor produtivo, baixando os juros e facilitando a recomposição do crédito à agricultura, ao comércio e à indústria.
O risco de retorno da inflação foi exagerado. É certo que era necessário corrigir os preços do petróleo, mas o próprio governo quase produziu o desastre, ao permitir a correção das tarifas públicas (e não públicas, como as tarifas dos setores privatizados) pelo IGPM. Os demais aumentos foram localizados em uns poucos produtos como o açúcar, o álcool e o feijão, mas eles subiram uma vez e pararam. A inflação é um processo de excesso de demanda, quando todos os preços sobem e isso não ocorreu e está longe de acontecer. Com o enorme desemprego e a renda salarial em queda como poderia haver excesso de demanda?
Alguns setores temem que possa se repetir uma alta nos preços do petróleo como a que ocorreu na década de 80, resultando numa inflação que imobilizaria o crescimento da economia. É algo pouco provável mas, se vier a acontecer, o que se tem que fazer é expurgar o preço do petróleo do índice de inflação e tocar a vida para a frente. O que não pode ocorrer é ficarmos plantados na estagnação econômica com medo do que o futuro nos reserva.
Longe de recear, minha crença hoje é que estamos próximos de fatos muito positivos na questão do petróleo. Provavelmente a grande surpresa para os brasileiros, neste início de milênio, é que vamos alcançar a auto-suficiência no abastecimento do petróleo num prazo relativamente curto, após meio século de frustrações. Isso nos fará economizar US$ 3 bilhões ou 4 US$ bilhões anuais, ajudando extraordinariamente a solucionar o problema de nossas contas externas. Significa superar a mais grave restrição ao processo de desenvolvimento brasileiro, sem prejuízo da estabilidade e com mais equilíbrio interno e externo.
O que é preciso, então, de imediato, é convencer o governo a perder o medo do futuro e tratar de dar prioridade ao setor produtivo: baixar os juros, restabelecer o crédito e estimular as exportações, aproveitando as novas condições para o crescimento que estão dadas e que não devem ser desperdiçadas por mais um ano.
Somente a retomada do desenvolvimento vai nos permitir superar os gravíssimos problemas sociais que o velho século 20 está transferindo para o novo século. Cabe ao governo, que nós elegemos, mostrar aos brasileiros se vamos continuar a ser metabolizados pela tal globalização ou se seremos parceiros no mundo cada vez mais globalizado do século 21.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP e presidente da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara Federal





