Delfim Netto
Delfim Netto
Um pouco mais de coragem (1)
Final de ano, início de um novo milênio (pelo calendário gregoriano), são inevitáveis as solicitações para que se avalie a economia em 1999 e se arrisquem previsões para o próximo. Acreditando na paciência dos leitores, estou dividindo a matéria em três comentários, o primeiro hoje e os demais nas duas próximas semanas.
A primeira constatação é que a economia brasileira chega ao final de 1999 em condições bem melhores do que as que vigiam no início do ano. Os leitores têm o direito de estranhar: mas, como, se foi um ano de aperto geral, de zero de crescimento, salários em queda e ainda altos níveis de desemprego? Como é que melhorou? A resposta pode ser um truísmo, mas... melhorou porque deixou de piorar...
Em 1999, o Brasil se libertou de uma das mais graves restrições da economia que era o câmbio sobrevalorizado, sustentado por uma taxa de juros gigantesca que destruiu um pedaço do setor produtivo brasileiro. Além da destruição interna, aquela política produziu um enorme estrago nas relações externas do país, permitindo o acúmulo de um déficit em conta corrente de US$ 135 bilhões.
A mudança do regime cambial, em janeiro de 1999, aconteceu não por iniciativa nossa mas porque o País ia quebrar, depois de quatro anos vividos sob a falsa premissa de que num mundo globalizado, de livre movimentação de capitais, sempre haveria quem financiasse os nossos déficits. Não havia, como ficou demonstrado nos sucessivos ataques à nossa moeda que só cessaram quando se abandonou a rigidez cambial e a taxa passou a flutuar.
O que faz a diferença entre os dois regimes? Quando se tem o câmbio fixo, o instrumento de ajuste são os juros, com efeitos devastadores: o ajuste se faz pelo corte de empregos e pela compressão da atividade produtiva. Com o câmbio flutuante, a volatilidade que antes era dos juros passa para o câmbio.
As flutuações do câmbio tem efeitos muito menores sobre os níveis de atividade da economia real. Os juros podem cair, estimulando a produção, e essa combinação de juros menores e câmbio flutuante favorece a expansão das exportações. A política econômica passa a depender menos dos humores dos mercados financeiros e pode voltar a priorizar as atividades produtivas, na indústria, na agricultura e no comércio exterior, melhorando a renda e o emprego dos brasileiros.
O que se esperava de pior após a desvalorização cambial não aconteceu em 1999. A inflação não explodiu como temiam (o FMI e o governo). Tampouco o PIB caiu 4% ou 5%. A economia ainda se move uito lentamente, mas já há sinais de queda no ritmo de crescimento do desemprego e o volume das exportações cresceu. As importações vem sendo substituídas pela produção interna. Isso permitiu reduzir o déficit comercial de US$ 6 bilhões para algo próximo de US$ 1,5 bilhão. A economia parou de piorar, portanto.
Há possibilidades da economia voltar ao crescimento, já no ano 2000. Acho um pouco ridículas as previsões de crescimento do PIB na segunda casa decimal, 3,57% ou 3,84%, mas o fato é que nunca estivemos tão perto da retomada do desenvolvimento, depois que nos libertamos da armadilha cambial e após um ano em marcha lenta.
O quanto vamos crescer depende de nós mesmos e do governo entender que pode perder o medo de apoiar a atividade produtiva, porque não há incompatibilidade entre desenvolvimento e estabilidade. Ele só precisa ter a coragem de baixar os juros (baixar o sarrafo, como diz o Presidente) e expandir o crédito à indústria e à agricultura, facilitando a recuperação do capital de giro das pequenas e médias empresas e estimulando firmemente as exportações.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado pelo PPB-SP e presidente da Comissão de Finanças e Tributação da Câmara Federal
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