Delfim Netto





Dura lição para quem escolheu mal
Nas últimas semanas vêm se confirmando as notícias de transferência de empresas (multinacionais em sua maioria) da Argentina para o Brasil. São algumas dezenas de empresas demandando o mercado brasileiro e, nem escala menor, outros países do Mercosul. Não é o caso de comemorar, mas o fato é que esse movimento já era esperado.
Os custos dessas transferências são enormes e representam uma dura lição para essas empresas que escolheram a localização errada, por não perceberem que os preços estavam errados. A Argentina tem um regime cambial muito difícil de ser modificado e está com dificuldades em administrar compromissos internos de grande vulto. A complicação maior é que sua taxa cambial continua sobrevalorizada.
As empresas mutantes se localizaram mal no Mercosul porque acreditaram que o câmbio era uma variável fixada definitivamente, que nunca mais iria voltar ao ponto de equilíbrio. Em todos esses anos parecia indiferente o fato que de a Argentina só fez saldo comercial positivo com o Brasil, acumulando saldos negativos com o resto do mundo. Isso era suficiente para mostrar onde se localizava o problema. Apenas alguns psicopatas travestidos de economistas negavam o problema.
A partir da mudança da política cambial no Brasil, em janeiro, começaram a se restabelecer as condições de crescimento de nossa economia. Nosso câmbio ainda não alcançou o equilíbrio, há uma subvalorização do real frente ao dólar, mas os empresários já perceberam que na medida em que se estabelecer uma relação correta entre o peso e o real, mudam profundamente as condições para a localização das empresas. Certamente, a Argentina deixou de oferecer, artificialmente, as melhores condições para qualquer setor exportável.
Esses acontecimentos nos oferecem o exemplo típico de como o mercado pode errar quando os preços não estão no lugar certo. Ignorando essas circunstâncias, as empresas se estabeleceram na Argentina de boa-fé, acreditando nas garantias dos dois governos de que nunca mais se mexeria no câmbio, nem no Brasil, nem na Argentina.
De há muito tempo já dava para perceber que a situação do Brasil era ainda mais complicada, devido a dimensão de seu mercado e ao acúmulo de gigantescos déficits em conta corrente que em cinco anos somaram US$ 135 bilhões.
Algumas pessoas ainda crêem que o regime cambial brasileiro foi mudado pela nossa própria iniciativa. A verdade é que o regime foi modificado à força, de fora para dentro. Foi uma dura lição para nossos elegantes ‘‘nouveaux économistes’’ que não acreditavam que a racionalidade imposta pelo mercado depende dos preços e que frequentemente é o governo que põe os preços no lugar errado.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP e presidente da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara Federal

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